Referência na área da reabilitação nas Ilhas Baleares, o Hospital Sant Joan de Déu Palma–Inca destaca-se por um modelo de cuidados que alia especialização clínica, inovação tecnológica e acompanhamento humanizado. Em entrevista à Revista Hospitalidade, Jaume Morell Elias, Diretor-Geral, e Nicolas Flaquer Terrasa, Diretor Clínico, partilham a visão e os desafios do trabalho desenvolvido para uma reabilitação que ultrapassa os limites do Hospital, valorizando a continuidade dos cuidados, o envolvimento das famílias e a integração na comunidade. Uma reflexão sobre o futuro da reabilitação, onde a tecnologia está ao serviço de um objetivo essencial: devolver a cada pessoa a maior autonomia e qualidade de vida possíveis.
A reabilitação é uma das áreas que mais claramente define a identidade do Hospital San Joan de Déu Palma-Inca. Como foi construído este posicionamento e o que significa ser um centro de referência nesta área?
Jaume Morell Elias: Em Espanha, as competências em saúde estão transferidas para as comunidades autónomas, pelo que cada uma gere o seu sistema de saúde. Nas Ilhas Baleares, em 2013, foi criada uma rede de hospitais públicos que integra hospitais de administração pública e hospitais privados sem fins lucrativos que dedicam 100% dos seus recursos à atividade pública.
Integramos esta rede através de um convénio específico e, desde então, procura responder às necessidades identificadas pelo Serviço de Saúde das Ilhas Baleares. Nós, em Sant Joan de Déu somos uma referência em reabilitação para toda a ilha de Maiorca.
Em casos específicos de neurorreabilitação, por exemplo depois de um acidente vascular cerebral ou de uma lesão medular, as pessoas são encaminhadas para Sant Joan de Déu depois do internamento da fase aguda nos hospitais de referência. Este processo levou-nos a investir na especialização, o que se traduz, também, na contratação de profissionais especialistas e altamente preparados para a neurorreabilitação, no investimento em equipamento e na adaptação das infraestruturas às necessidades destas pessoas.
Assim conseguimos dar resposta às necessidades do Serviço de Saúde das Baleares e posicionar-nos como referência.
O Hospital trabalha com realidades muito diferentes. Que visão de reabilitação une todas estas áreas?
Jaume Morell Elias: A reabilitação é um serviço transversal e multidisciplinar. Dá suporte a diferentes processos: geriatria, traumatologia, cuidados paliativos e, naturalmente, neurorreabilitação.
Nicolas Flaquer Terrasa: Temos várias áreas de reabilitação, mas aquilo que mais nos caracteriza enquanto centro de referência é a neurorreabilitação.
Temos programas específicos para pessoas com dano cerebral adquirido e lesão medular, tanto em regime de internamento como ambulatório e comunitário. Somos, também, referência na reabilitação de pessoas amputadas, incluindo a reabilitação, protetização e acompanhamento posterior.
Um dos aspetos mais importantes para nós é precisamente a continuidade assistencial. A pessoa pode começar por estar hospitalizada, depois continuar a ser acompanhada em regime de ambulatório ou no domicílio e, posteriormente, fazer a transição para a comunidade e para a sua dimensão social.
Onde consideram que está hoje a principal diferença do vosso modelo?
Jaume Morell Elias: Temos dois elementos. Por um lado, temos a especialização e a dedicação de recursos humanos e materiais. Por outro lado, temos o modelo, os valores e a forma de fazer de São João de Deus: o acompanhamento, o acolhimento e a forma como cuidamos das pessoas.
Tratamos das pessoas como gostaríamos de ser tratados e formamos a equipa de forma que compreenda esses valores. Temos a vantagem de fazer uma gestão privada de um serviço público e de podermos constituir as nossas próprias equipas. Conseguirmos fazê-lo e esse é um elemento diferenciador.
É uma diferença que muitos doentes e familiares reconhecem quando chegam aqui. Dizem-nos: “Aqui respira-se outra coisa. Aqui tratam-nos de maneira diferente.”
Como tem evoluído este modelo de intervenção?
Nicolas Flaquer Terrasa: Tudo isto tem evoluído não apenas graças aos meios humanos que temos, mas igualmente através do desenvolvimento tecnológico. Temos piscina de hidroterapia com plataforma elevável robôs, exoesqueletos de membro superior e inferior, dispositivos para diferentes terapias e, mais recentemente, incorporámos a neuromodulação, que inclui técnicas específicas, como a estimulação magnética transcraniana e a estimulação elétrica transcraniana.
Temos ainda um simulador de condução, integrado num programa a que chamamos NeuroDrive, que nos permite avaliar as capacidades para conduzir de pessoas com dano cerebral e também trabalhar a sua reabilitação.
Toda esta elevada especialização tem de ser acompanhada por formação. Investimos muita formação nos profissionais. E a base de tudo isto é o trabalho em equipa. Quando abordamos patologias e situações tão complexas, não estamos a falar apenas do médico. Estamos a falar de toda a equipa. Todos participam, incluindo o profissional de serviço social, que é também muito importante.
Esta especialização foi sendo construída ao longo do tempo. Como se prepara uma organização para atingir este nível de diferenciação?
Nicolas Flaquer Terrasa: Resulta de um plano estratégico, onde definimos que queríamos ser em que se definiu que queríamos ser excelentes numa determinada área, sobretudo na reabilitação. Isso implica proporcionar formação específica, procurar pessoas capacitadas para liderar e criar uma equipa que trabalhe continuamente na melhoria deste modelo.
Há cerca de dez anos criámos um grupo que reunia profissionais de diferentes áreas como a Medicina, Enfermagem, Terapia Ocupacional, Terapia da Fala, entre outras e desenvolvemos um plano de formação específico e uma forma comum de trabalhar.
É muito importante que todos caminhem na mesma direção. Não basta termos excelentes profissionais individualmente. Também investimos muito nos espaços. Procurámos que os ginásios tivessem luz natural, contacto com o exterior e condições capazes de estimular as pessoas durante a reabilitação.
Temos, por exemplo, um pequeno apartamento onde o utente pode praticar a vida que terá no domicílio. Existe uma cama, uma casa de banho, um lavatório com espelho e uma pequena cozinha funcional.
A pessoa pode vestir-se, calçar os sapatos, utilizar a casa de banho ou preparar alguma coisa na cozinha. A recuperação de uma função só faz sentido se depois conseguirmos transferi-la para aquilo que a pessoa precisa de fazer no quotidiano.
Quando falamos de sucesso em reabilitação, é suficiente medir números ou devemos avaliar sobretudo autonomia e qualidade de vida?
Nicolas Flaquer Terrasa: Para nós, medir é fundamental porque, se não medirmos, não sabemos se conseguimos ou não atingir determinado resultado.Utilizamos escalas à entrada que nos dizem qual é a situação da pessoa, como o Barthel ou a FIM, por exemplo, para além de muitas outras escalas específicas.
Quando uma pessoa chega, toda a equipa faz uma avaliação e cada profissional avalia a sua área. Tudo tem de ser medido: se a pessoa consegue caminhar, se não consegue, qual o grau de dependência. Quando reunimos toda essa informação, a equipa encontra-se e estabelece prioridades. Uma pessoa pode ter uma determinada limitação física, mas pode existir naquele momento uma prioridade social que é mais urgente e que temos de abordar imediatamente.
As prioridades vão sendo revistas nas reuniões interdisciplinares e as escalas são repetidas periodicamente para acompanhar a evolução. Quando começamos a prever a alta, procuramos que a pessoa tenha atingido o máximo de ganho funcional possível.
E, quando recebe alta, há outro objetivo muito importante: que não perca aquilo que conseguiu. Por isso continuamos a acompanhá-la, seja em ambulatório, seja no domicílio. Ao longo dos anos percebemos que, quando algumas pessoas tinham alta de todo o processo, muitas acabavam por perder capacidades posteriormente. Isso obrigou-nos a pensar noutras respostas.
O trabalho de reabilitação envolve muitos profissionais. Como se consegue construir, na prática, um plano verdadeiramente individualizado?
Nicolas Flaquer Terrasa: Dizer que trabalhamos em equipa é fácil. Na prática, é mais complexo.
Estamos perante situações muito exigentes. Uma pessoa com lesão medular ou dano cerebral chega, muitas vezes, com uma enorme carga de sofrimento. A família também sofre. Por isso, não podemos abordar apenas a dimensão física. A nossa intervenção é integral, tendo em conta também as dimensões sociais e emocionais.
As nossas equipas integram psicólogos e neuropsicólogos, profissionais de serviço social e especialistas de diferentes áreas clínicas e terapêuticas.
Como garantem que todos os profissionais trabalham para os mesmos objetivos?
Nicolas Flaquer Terrasa: Temos reuniões interdisciplinares regulares.
Na unidade de hospitalização de neurorreabilitação, por exemplo, cerca de 12 profissionais reúnem-se semanalmente durante aproximadamente duas horas. Revemos os casos, a evolução, os objetivos definidos e aquilo que pode ser necessário alterar.
Os objetivos também não são impostos pela Direção. São construídos pela própria equipa a partir da experiência, das necessidades identificadas e da evolução da pessoa.
A família também faz parte desse processo?
Nicolas Flaquer Terrasa: Sem dúvida. A família participa em todo este percurso. Também temos de a ajudar a compreender aquilo que está a acontecer e prepará-la para o regresso da pessoa a casa.
Ensinamos cuidados básicos, mobilizações, situações em que devem pedir ajuda e ajudamos a identificar adaptações que poderão ser necessárias no domicílio.
Não intervimos apenas sobre a pessoa. Intervimos também com a família.
Foi da necessidade de manter os ganhos alcançados que surgiram programas dirigidos à autonomia e à participação na comunidade?
Nicolas Flaquer Terrasa: Sim. Criámos um programa de promoção da autonomia que procura mostrar à pessoa que não deve ficar em casa, porque aí pode acabar por perder funcionalidade. Queremos que continue ativa enquanto pessoa física e enquanto pessoa social, dentro da sociedade.
Temos, por exemplo, atividades de caiaque e canoagem adaptados e programas que ensinam uma pessoa em cadeira de rodas a chegar à praia e a utilizar esse espaço. Procuramos criar oportunidades para que aquilo que foi recuperado durante a reabilitação possa ser utilizado na vida real.
A alta hospitalar deixa então de representar o fim da reabilitação?
Nicolas Flaquer Terrasa: Exatamente. Na neurorreabilitação, a permanência hospitalar média ronda os três meses, embora varie muito de pessoa para pessoa. Depois, o acompanhamento ambulatório ou domiciliário pode prolongar-se, em média, durante cerca de um ano.
A reabilitação domiciliária terá, por isso, um peso cada vez maior no futuro?
Nicolas Flaquer Terrasa: Acredito claramente que sim. A experiência da geriatria mostra-nos cada vez mais que o lugar onde a pessoa está melhor é, sempre que possível, no seu próprio domicílio.
As instituições continuarão a ser necessárias em determinadas situações, mas acredito que haverá uma mudança de paradigma. As instituições terão de sair e ir ao domicílio da pessoa e à comunidade.
A reabilitação domiciliária permite também ao terapeuta conhecer as necessidades reais daquela pessoa: como é a casa, que obstáculos existem, que adaptações são necessárias e aquilo que ela efetivamente precisa de conseguir fazer. E os resultados não são apenas funcionais. Também são muito importantes do ponto de vista emocional.
Para mim, isto é claramente o futuro.
Com tanta inovação disponível, como distinguem uma tecnologia que efetivamente melhora os resultados daquela que é apenas tecnologicamente apelativa?
Nicolas Flaquer Terrasa: Procuramos introduzir tecnologias que tenham evidência científica. Quando incorporamos determinado equipamento, precisamos de perceber se existe benefício e qual é o impacto que produz.
Há áreas em que a evidência já é significativa. Noutras ainda estamos a produzir conhecimento e a medir resultados. O objetivo não pode ser ter tecnologia apenas porque é nova.
Jaume Morell Elias: Também damos muita importância ao trabalho em rede. Antes de propor a aquisição de um robô ou de determinada tecnologia, as equipas visitam outros centros de referência, em Espanha, Alemanha ou Estados Unidos.
Conhecemos aquilo que outros estão a fazer, aprendemos com a experiência deles e só depois decidimos de que forma determinada tecnologia poderá integrar o nosso modelo.
O que acredita que poderá transformar mais profundamente a reabilitação nos próximos anos?
Nicolas Flaquer Terrasa: A inteligência artificial será certamente uma das áreas que teremos de explorar. Também veremos avanços muito significativos nos dispositivos médicos, nos sistemas de comunicação e na interação com o sistema nervoso.
A evolução é tão rápida que é difícil antecipar aquilo que acontecerá. Hoje já existem experiências que há alguns anos pareceriam impossíveis, nomeadamente na lesão medular, com dispositivos capazes de ajudar pessoas a recuperar determinadas capacidades.
Vamos assistir a desenvolvimentos extraordinários, tanto ao nível tecnológico como na compreensão do sistema nervoso. Mas a base continuará a ser humana. A robótica e todos estes recursos são complementos que nos ajudam a melhorar a reabilitação.
Quando pensam no futuro da reabilitação, qual é a mudança que gostariam de ver concretizada, não ao nível da tecnologia, mas na vida das pessoas?
Nicolas Flaquer Terrasa: Uma das situações mais difíceis para qualquer pessoa é tornar-se dependente, sobretudo quando acontece inesperadamente aos 40 ou 50 anos.
O que temos de conseguir é que tenha a máxima autonomia possível. O melhor que podemos fazer é dar-lhe todas as ferramentas para que consiga ser o mais autónoma possível, no seu domicílio e na comunidade.
E isso não depende apenas dos hospitais. Implica também termos cidades acessíveis, eliminar barreiras e trabalhar em rede com associações e instituições da comunidade. Quando a pessoa regressa à sua vida, essas organizações são fundamentais para apoiar a sua reintegração.
A reabilitação não pode terminar no Hospital. O objetivo é que a pessoa consiga voltar a participar na sua vida com a maior independência possível.
Leia a Revista Hospitalidade nº 353 AQUI