Entrevista: Marisa Oliveira
Nesta entrevista à Revista Hospitalidade, Rui Fonseca-Pinto, Diretor da Universidade de Leiria e do Oeste, reflete sobre os desafios e as oportunidades que se colocam à reabilitação, o papel da inovação e da interdisciplinaridade e a importância das parcerias entre a academia e as instituições de saúde, como o ISJD. Uma reflexão que aponta para um futuro em que a tecnologia deve estar ao serviço das pessoas, sem nunca perder de vista a dimensão humana dos cuidados, a proximidade e o acesso à reabilitação.
Quando pensamos no futuro da reabilitação física, começamos normalmente pela tecnologia. Do ponto de vista de quem forma os profissionais do futuro, essa é realmente a principal transformação em curso ou há mudanças mais profundas a acontecer?
A tecnologia é, sem dúvida, uma das transformações mais visíveis que estamos a assistir na área da reabilitação física, mas creio que não é a mudança mais profunda. A tecnologia deve ser vista como um recurso ao serviço das pessoas, da qualidade dos cuidados e da tomada de decisão clínica. O verdadeiro desafio está na capacidade que os profissionais terão de integrar essas ferramentas de forma crítica, ética e baseada na evidência científica.
Paralelamente, estamos a assistir a uma mudança importante no perfil dos problemas de saúde. A população está a envelhecer, as doenças crónicas são cada vez mais prevalentes e os utentes apresentam necessidades mais complexas, exigindo abordagens integradas e centradas na pessoa.
Por isso, talvez a transformação mais significativa seja o reforço da interdisciplinaridade. A capacidade de comunicar, colaborar e construir soluções conjuntas torna-se tão importante quanto o domínio técnico da própria profissão.
Como é que estas mudanças obrigam as Instituições de Ensino Superior (IES) a repensar a formação dos futuros profissionais da área?
Estas mudanças estão a obrigar as IES a uma reflexão profunda sobre o perfil de competências que os profissionais da reabilitação necessitarão ao longo das próximas décadas. Estamos a assistir a uma deslocação progressiva dos cuidados para o domicílio e para a comunidade. Isto implica que os profissionais tenham uma visão mais abrangente da saúde, compreendendo não apenas a condição clínica, mas também os contextos familiar, social e ambiental em que cada pessoa vive. A reabilitação está cada vez mais próxima da vida real das pessoas.
Que áreas considera indispensáveis reforçar na formação em reabilitação?
De uma forma geral, os planos de estudos têm procurado acompanhar a evolução da prática clínica, mas este é um processo contínuo, porque a inovação acontece a um ritmo cada vez mais acelerado. Na minha perspetiva, é fundamental reforçar áreas como a literacia digital, a utilização crítica de dados em saúde, a telereabilitação e a integração de novas tecnologias. Mas tão importante quanto isso é fortalecer competências transversais, como o pensamento crítico, a comunicação, o trabalho interdisciplinar e a prática baseada na evidência.
Até que ponto a tecnologia exige novas competências logo na formação de base?
A tecnologia exige cada vez mais competências adquiridas logo na formação de base. Todos os profissionais devem compreender os princípios de funcionamento das principais ferramentas digitais, da telereabilitação, da análise de dados e dos sistemas de apoio à decisão. Mas esta transformação tem também uma outra implicação: a necessidade de criar novas ofertas formativas que combinem competências das ciências da saúde com competências tecnológicas. Na nossa Escola Superior de Saúde, por exemplo, temos já aprovada uma licenciatura inovadora em Saúde Digital (registada na área da saúde) que arrancará no próximo ano letivo e que responde precisamente a esta convergência entre saúde, tecnologia e dados.
A especialização surge depois, à medida que cada profissional aprofunda áreas específicas como a inteligência artificial, a robótica ou a realidade virtual. O essencial é garantir uma formação de base sólida que permita compreender, avaliar e integrar a inovação tecnológica de forma crítica, segura e centrada na pessoa.
O que considera essencial preservar, independentemente da evolução tecnológica?
Precisamente num momento em que tanto se fala de inteligência artificial e de outras formas de inteligência tecnológica, é importante recordar aquilo que continua a ser exclusivamente humano. Na reabilitação, a tecnologia pode apoiar a avaliação, a monitorização e até algumas decisões, mas não substitui a relação terapêutica. Há competências que devem permanecer no centro da formação: a empatia, a compaixão, a capacidade de escuta, a comunicação e a compreensão da pessoa na sua dimensão biopsicossocial.
A tecnologia continuará a evoluir, mas a verdadeira essência das profissões da saúde, e da reabilitação em particular, continuará a estar na dimensão humana do cuidado. Essa é uma competência que nenhuma máquina consegue replicar plenamente e que devemos preservar e valorizar na formação dos futuros profissionais.
Estamos perante pessoas mais informadas, que querem participar nas decisões sobre a sua saúde. Isso obriga a formar profissionais diferentes, com maior capacidade de comunicação?
Hoje, as pessoas chegam às consultas mais informadas, com mais perguntas e com uma expectativa crescente de participar nas decisões sobre a sua saúde. Isto exige profissionais com excelentes competências de comunicação, capazes de explicar, esclarecer e enquadrar criticamente a informação disponível. Mais do que transmitir conhecimento, é necessário construir decisões em conjunto com a pessoa, respeitando os seus valores, expectativas e objetivos.
A reabilitação sempre teve uma forte componente centrada na pessoa, mas esta nova realidade reforça a importância da comunicação, da decisão partilhada e da capacidade de adaptar a intervenção às necessidades individuais de cada utente.
Afinal, os melhores resultados alcançam-se quando o profissional e a pessoa trabalham verdadeiramente enquanto parceiros no processo de reabilitação.
Acredita que devemos continuar a formar profissionais especialistas ou deveria existir mais formação conjunta entre áreas como a fisioterapia, a terapia ocupacional, a terapia da fala, enfermagem, medicina, psicologia e outras áreas?
A reabilitação é, por natureza, uma área interdisciplinar. Nenhum profissional responde sozinho à complexidade das necessidades, pelo que a capacidade de trabalhar em equipa é hoje uma competência essencial. Continuo a acreditar na importância de profissionais com identidade e competências próprias nas suas áreas de especialização. No entanto, também vejo vantagens em reforçar uma formação de base mais transversal em saúde, sobretudo nos primeiros momentos do percurso formativo, seguida de processos de diferenciação e especialização progressiva.
Mais do que diluir profissões, entendo que o objetivo possa ser formar futuros profissionais que conheçam melhor as competências uns dos outros, comuniquem de forma mais eficaz e desenvolvam uma verdadeira cultura de trabalho colaborativo.
O contacto com a prática clínica acontece suficientemente durante a formação? Que importância atribui aos estágios e à aprendizagem em contexto real de forma a preparar um profissional o seu futuro?
Nos cursos da área da saúde, e particularmente nas áreas da Terapia e Reabilitação e Enfermagem, o contacto com a prática clínica é um elemento central da formação, e defendo a importância de um contacto com a prática desde cedo na formação (este é o modelo que temos na Escola de Saúde da Universidade de Leiria e Oeste). A aprendizagem em contexto real, junto de profissionais experientes e de pessoas com necessidades concretas de cuidados, é determinante para o desenvolvimento das competências técnicas, relacionais e éticas dos futuros profissionais. O sucesso deste modelo é bem demonstrado pela excelente reputação que os nossos diplomados têm, não apenas em Portugal, mas também em diversos contextos internacionais.
Ainda assim, considero que o modelo atualmente existente em Portugal pode evoluir. Defendo um reforço da ligação formal entre as instituições de ensino e os prestadores de cuidados de saúde, através de modelos inspirados no conceito de "hospital-escola", que poderão encontrar novas oportunidades de concretização no âmbito dos Centros Académicos Clínicos. Não se trata de replicar o modelo da formação médica, mas de aproveitar uma das suas maiores virtudes: uma parceria estruturada e duradoura entre academia e instituições de saúde, permitindo uma integração mais efetiva entre ensino, prática clínica, investigação e inovação.
Existe um protocolo de colaboração entre o ISJD e a Universidade de Leiria e Oeste, nas áreas da investigação e intercâmbio de estágios. Que valor atribui a esta parceria?
Atribuo um enorme valor a este tipo de parcerias. A aproximação entre a academia e as instituições prestadoras de cuidados é uma das bases do sucesso da formação em saúde, porque permite aos estudantes contactarem com contextos reais de prática, profissionais experientes e necessidades concretas das populações. Mas estas parcerias vão muito além da formação. São também fundamentais para identificar problemas reais, gerar conhecimento e desenvolver investigação com impacto efetivo na melhoria dos cuidados de saúde. Essa é, aliás, uma das missões centrais das instituições de ensino superior: formar profissionais, produzir conhecimento e contribuir para a resolução dos desafios da sociedade.
Neste sentido, a colaboração entre a Universidade de Leiria e Oeste através da nossa Escola, e instituições como o Instituto S. João de Deus cria um ambiente particularmente rico, onde ensino, investigação e prática clínica se reforçam mutuamente, em benefício dos estudantes, dos profissionais e, sobretudo, das pessoas que recebem cuidados.
Que oportunidades poderão crescer no âmbito desta parceria?
Vejo um enorme potencial nesta parceria, quer ao nível da formação, quer da investigação. Em áreas como a reabilitação, o envelhecimento, a saúde mental e os cuidados continuados, a proximidade entre a academia e uma instituição com a experiência do Instituto S. João de Deus cria condições únicas para desenvolver conhecimento com aplicação direta na prática clínica.
Do ponto de vista da investigação, existem oportunidades muito relevantes associadas aos nossos mestrados e pós-graduações, mas também ao futuro programa doutoral na área da Reabilitação e Envelhecimento. Estas parcerias permitem identificar problemas concretos, testar soluções inovadoras e produzir evidência científica com impacto real nos cuidados prestados. Vejo igualmente oportunidades no âmbito dos concursos da FCT, nomeadamente das bolsas de doutoramento em contexto não académico, promovendo projetos desenvolvidos em estreita colaboração entre investigadores e profissionais no terreno.
Finalmente, esta parceria poderá reforçar os contextos de formação clínica dos estudantes dos nossos cursos e mestrados em Enfermagem, Fisioterapia, Terapia Ocupacional, Terapia da Fala e Ciências do Envelhecimento, contribuindo para uma formação ainda mais próxima das necessidades das pessoas e dos serviços de saúde.
Um dos desafios da investigação em saúde é garantir que o conhecimento chega efetivamente à prática. Como podemos aproximar a investigação da prática clínica?
Uma das formas mais eficazes de encurtar essa distância é apostar em investigação aplicada, desenvolvida em estreita colaboração com os profissionais e as instituições de saúde. Quando os projetos partem de problemas reais identificados nos serviços, aumenta significativamente a probabilidade de os resultados serem implementados e gerarem impacto. É igualmente importante valorizar projetos de melhoria contínua da qualidade, estudos de implementação e iniciativas que envolvam, desde o início, investigadores, profissionais, gestores e utentes.
As parcerias entre instituições de ensino superior e prestadores de cuidados têm aqui um papel decisivo. Permitem criar um círculo virtuoso em que os desafios da prática alimentam a investigação, e a investigação produz conhecimento que regressa à prática sob a forma de melhores cuidados, mais eficiência e melhores resultados para as pessoas. No fundo, a melhor investigação em saúde é aquela que não fica apenas publicada em artigos científicos, mas que contribui efetivamente para melhorar a vida das pessoas.
Que competências serão mais determinantes para os profissionais do futuro?
Acredito que as competências mais determinantes serão uma combinação entre capacidade de adaptação tecnológica e uma sólida dimensão humana. A evolução tecnológica será cada vez mais rápida, pelo que será essencial dominar novas ferramentas, compreender dados, integrar inteligência artificial e acompanhar a inovação ao longo de toda a carreira. Mas essa competência técnica, por si só, não será suficiente. O verdadeiro fator diferenciador continuará a ser a capacidade de tomar decisões informadas por valores, ética e humanismo.
No futuro, os melhores profissionais não serão os que competem com a tecnologia, mas os que conseguem utilizá-la de forma inteligente, crítica e responsável, colocando sempre a pessoa no centro dos cuidados.
O que terá inevitavelmente de mudar e o que nunca se deverá perder?
Creio que há aspetos da forma como ensinamos e, por vezes, da forma como organizamos as profissões de saúde que terão inevitavelmente de evoluir. Continuamos a ter modelos muito centrados em cada profissão e, em alguns casos, persistem lógicas de corporativismo que podem criar barreiras à colaboração e à inovação. Num contexto em que os problemas de saúde são cada vez mais complexos, precisamos de formar profissionais mais preparados para trabalhar em equipas interdisciplinares e para integrar diferentes saberes em benefício da pessoa.
Ao mesmo tempo, há algo que gostaria que nunca se perdesse: a proximidade. A proximidade no ensino, entre estudantes, docentes e contextos de prática; e a proximidade nos cuidados, na relação humana entre o profissional e a pessoa. A tecnologia, a ciência e os modelos organizacionais vão continuar a evoluir, mas a essência da reabilitação continuará a estar na capacidade de compreender cada pessoa, as suas necessidades e os seus objetivos.
Portugal está a preparar profissionais em número e com competências suficientes para responder às necessidades futuras na área da reabilitação?
Creio que Portugal tem demonstrado uma enorme capacidade para formar profissionais de reabilitação altamente qualificados, reconhecidos pela sua competência técnica e capacidade de adaptação em diferentes contextos, dentro e fora do país. No entanto, perante os desafios do envelhecimento da população, do aumento das doenças crónicas e da crescente necessidade de cuidados de reabilitação, será necessário formar mais profissionais e assegurar que possuem as competências adequadas para responder às necessidades futuras.
Mas o maior desafio poderá nem ser a formação. É a capacidade de atrair, fixar e reter estes profissionais. E isso não passa apenas pela questão remuneratória. Passa por criar condições para o desenvolvimento pessoal e profissional, com oportunidades de progressão na carreira, acesso à formação contínua, envolvimento em projetos de inovação e investigação e condições de trabalho que permitam conciliar a vida profissional e familiar.
De uma perspetiva académica, que transformação gostaria de ver concretizada na reabilitação física?
Se pudesse destacar uma transformação para o futuro da reabilitação, escolheria a acessibilidade aos cuidados. Ainda hoje, em muitos países, incluindo países desenvolvidos, (e naturalmente em Portugal) existe uma percentagem muito significativa de pessoas que necessita de cuidados de reabilitação e que não consegue aceder a eles de forma atempada ou adequada. Esta realidade tem consequências diretas na funcionalidade, na participação social, na autonomia e, em última análise, na qualidade de vida das pessoas.
Enquanto Escola Superior de Saúde da Universidade de Leiria e Oeste, temos uma responsabilidade acrescida nesta matéria. Somos membros fundadores da World Rehabilitation Alliance, uma iniciativa promovida pela Organização Mundial da Saúde que tem precisamente como objetivo reforçar a integração e o acesso à reabilitação nos sistemas de saúde.
Gostaria de ver uma reabilitação mais acessível, mais próxima das comunidades e integrada de forma natural ao longo de todo o percurso de cuidados. A tecnologia poderá ajudar, mas o verdadeiro sucesso será garantirmos que todas as pessoas que beneficiariam de reabilitação têm efetivamente acesso a esses cuidados, independentemente da sua condição, local de residência ou contexto socioeconómico. No final, o grande objetivo da reabilitação é simples: permitir que mais pessoas vivam com maior funcionalidade, independência, participação e qualidade de vida.
Leia a Revista Hospitalidade nº 353 AQUI