O Instituto S. João de Deus – Funchal acolheu, a 8 e 9 de outubro, a VI Convenção dos Comportamentos Aditivos e Dependências da Madeira e a II Convenção dos Comportamentos Aditivos e Dependências da Macaronésia. O encontro reuniu especialistas, profissionais de saúde, investigadores e representantes institucionais de diferentes territórios, promovendo a reflexão científica, a partilha de experiências e o reforço da cooperação na prevenção e tratamento das dependências.
Ao longo de dois dias, o Auditório S. Bento Menni, Funchal, foi palco de um debate multidisciplinar sobre os desafios atuais associados aos comportamentos aditivos e às dependências, com particular atenção à evolução dos padrões de consumo, às novas formas de adição e à necessidade de desenvolver respostas sustentadas em evidência científica, centradas na pessoa e ajustadas às especificidades de cada território.
Na sua intervenção, o Ir. José Paulo, Presidente do ISJD, destacou a importância da articulação entre diferentes setores para assegurar respostas abrangentes e eficazes, sublinhando que a “atuação conjunta” é a “chave para uma reinserção bem-sucedida.” Uma atuação que deve envolver de forma articulada as áreas da saúde, proteção social, habitação, emprego e justiça.
O responsável destacou ainda a relevância da Estratégia Regional para a Prevenção e Redução dos Comportamentos Aditivos e Dependências 2026-2030 e defendeu o reforço da cooperação entre os quatro arquipélagos da Macaronésia (Madeira, Açores, Canárias e Cabo Verde), considerando os desafios específicos da insularidade, nomeadamente a dispersão geográfica, a acessibilidade aos cuidados e o estigma associado às dependências em comunidades de menor dimensão. Reafirmou também o compromisso do ISJD-Funchal com uma intervenção assente no valor da Hospitalidade que reconhece cada pessoa para além da sua condição de dependência e procura promover a recuperação, a autonomia, a dignidade e a reintegração na comunidade.
Novas dependências exigem novas respostas
A diversidade e complexidade dos comportamentos aditivos estiveram no centro dos trabalhos, que abordaram não apenas as dependências associadas ao álcool e às substâncias ilícitas, mas também os riscos emergentes relacionados com novas substâncias psicoativas, o jogo, as apostas online e a utilização das tecnologias digitais.
Luís Filipe Fernandes, Diretor Clínico do ISJD-Funchal, alertou para a crescente expressão das dependências associadas à internet e às redes sociais, embora o consumo de álcool continue a representar uma das principais preocupações de saúde pública na Região Autónoma da Madeira. O especialista chamou ainda a atenção para a influência das tecnologias e da inteligência artificial nos comportamentos de consumo, nomeadamente através de mecanismos digitais que identificam e estimulam as preferências dos utilizadores.
O programa científico incluiu conferências e painéis dedicados à realidade dos diferentes territórios da Macaronésia, à prevenção junto das novas gerações, ao impacto dos jogos nos jovens, à integração da perspetiva de género no tratamento das dependências e à inovação nas abordagens terapêuticas.
Foram igualmente debatidos temas como a relação entre saúde mental e comportamentos aditivos, drogas sintéticas, canabinoides, a intervenção comunitária, a redução de riscos e minimização de danos, o papel da atividade física nos processos de recuperação e a articulação entre dependências e segurança pública.
A importância da interdisciplinaridade e da cooperação
A Convenção constituiu um espaço de conhecimento, reflexão crítica e partilha de práticas entre profissionais e instituições, reforçando a importância da interdisciplinaridade e da cooperação interinstitucional na construção de respostas integradas.
A troca de experiências entre os diferentes territórios da Macaronésia permitiu colocar em diálogo realidades distintas, mas também identificar desafios comuns e oportunidades de colaboração na prevenção, tratamento, acompanhamento e reinserção das pessoas com comportamentos aditivos e dependências.
O encontro terminou com a ‘Marcha pela Saúde Mental´, associando à reflexão científica um momento de sensibilização para a importância da saúde mental e do combate ao estigma.
Com a realização desta iniciativa, o Instituto S. João de Deus reafirma o seu compromisso com a promoção do conhecimento científico, a qualificação contínua das respostas assistenciais e o desenvolvimento de cuidados integrados e humanizados, nos quais a competência técnica, o rigor científico e a Hospitalidade se colocam ao serviço de cada pessoa.