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Cuidar da comunicação é cuidar da vida Dia Nacional do Terapeuta da Fala
14 of November of 2025
No Dia Nacional do Terapeuta da Fala, o homenageamos todos os profissionais que, diariamente, ajudam a devolver voz, autonomia, segurança e dignidade a quem se encontra em situação de fragilidade. Entre esses profissionais, destacamos a Ana Teixeira, terapeuta da fala há quase 15 anos no ISJD–Montemor-o-Novo. A sua prática clínica reflete uma combinação rara de conhecimento técnico, empatia, paixão e Hospitalidade.
O percurso da Ana Teixeira começou com uma curiosidade inicial pela comunicação e pela relação com os outros. O contacto com um projeto piloto de intervenção precoce em Montemor-o-Novo despertou-lhe o interesse por uma área que, como viria a descobrir, não se limita à fala: é, acima de tudo, uma ciência que ajuda pessoas a comunicar, a alimentar-se e a recuperar funções essenciais para o dia a dia dos utentes.
Depois de uma primeira fase mais voltada para o trabalho com crianças, um estágio no Hospital de Alcoitão abriu-lhe novas perspetivas e revelou-lhe a paixão pela intervenção em adultos. Com a entrada do ISJD-Montemor-o-Novo na Rede Nacional de Cuidados Continuados, Ana encontrou aqui, o espaço ideal para integrar tudo aquilo que a movia: a reabilitação, a comunicação e o contacto humano.
Hoje, o seu trabalho concentra-se sobretudo nos utentes das unidades de convalescença e paliativos, onde acompanha casos de elevada complexidade clínica. Grande parte dos seus dias é dedicada a pessoas que sofreram AVC, traumatismos cranioencefálicos ou doenças oncológicas, muitas delas com dificuldades graves de comunicação ou de deglutição. “A área da disfagia cresceu de forma enorme nos últimos anos. Metade dos nossos utentes têm alterações de deglutição que não aprendemos tão profundamente na formação inicial. Tive de estudar muito depois”, explica.
Mas a Ana continua também a acompanhar crianças e jovens na consulta externa, onde recebe desde bebés de oito meses a adolescentes. Aqui, surgem frequentemente perturbações do desenvolvimento da linguagem, dificuldades de alimentação, perturbações do espetro do autismo e alterações de leitura e escrita, muitas delas agravadas pelo contexto de isolamento vivido durante a pandemia, que reduziu drasticamente as oportunidades de interação social e de observação facial.
Ao contrário do que muitos imaginam, a terapia da fala não se limita a trabalhar a voz ou a articulação. Envolve o treino da respiração, da postura, da musculatura facial, da mastigação e da deglutição. E tudo isto se reflete diretamente na autonomia e qualidade de vida da pessoa. Para Ana, o ponto de partida é sempre o mesmo: o que importa verdadeiramente para aquele utente. “Posso identificar um problema, mas se para a pessoa isso não tiver impacto, não faz sentido intervir. O que muda a vida das pessoas não é a técnica em si, é ajudá-las a recuperar o que perderam.”
A articulação com a equipa multidisciplinar é essencial nesse processo. Em internamento, os planos de intervenção são construídos semanalmente em conjunto, com fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, médicos, enfermeiros e a animadora sociocultural, sempre guiados pelas metas e expectativas do utente e da família. O objetivo é simples e profundo: aproximar a pessoa, tanto quanto possível, da vida que tinha antes.
É impossível não sentir o peso das histórias que marcam o seu dia a dia. Há utentes que recuperam o prazer de comer depois de meses a alimentar-se por sonda, outros que voltam a falar com familiares distantes graças a estratégias cuidadosamente ensinadas, outros ainda, que se emocionam por conseguirem voltar a partir um ovo ou bater claras para fazer um bolo. “Temos quem chore por conseguir mexer novamente numa receita sua. São pequenos gestos que para nós são simples, mas para eles representam recuperar vida.”
A pandemia trouxe desafios inéditos e exigiu criatividade. Com utentes isolados e impossibilitados de ver a família, a Ana encontrou soluções inesperadas através de videochamadas durante as sessões. “O que ficou para os utentes não foi a técnica, foi poderem falar com quem amavam. Isso mudou tudo.”
Para a sociedade, deixa um apelo importante: compreender que a terapia da fala é transversal a toda a vida — do nascimento à velhice — e que não se limita à fala. Trabalha-se comunicação, linguagem, leitura, escrita, alimentação e deglutição, e o impacto na vida das pessoas pode ser enorme, mesmo quando o problema não tem solução total.
Aos colegas de profissão, deixa um encorajamento: investir na formação contínua, escolher uma área de paixão e, sempre que possível, participar em investigação. “A nossa área evolui rápido. Temos de acompanhar, ser curiosos e colaborar para o crescimento da profissão.”
No ISJD–Montemor-o-Novo, a Ana Teixeira é mais do que terapeuta da fala, é alguém que devolve às pessoas a possibilidade de serem ouvidas, de exprimirem quem são e, de recuperarem, passo a passo, gestos simples muito significantes.












