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Canonização de S. João de Deus O amor é a única coisa que une as pessoas
16 of October of 2025
No dia em que celebramos a canonização de S. João de Deus, proclamada Santo pelo Papa Alexandre VIII a 16 de outubro de 1690, recordamos o testemunho de um homem que transformou a caridade em modo de vida.
Mais de três séculos depois, a sua mensagem continua viva em cada gesto de cuidado e em cada ato de Hospitalidade.Conversámos com o Pe. António José Ferreira Mariano, Irmão de S. João de Deus, que partilhou connosco o significado deste dia, a atualidade da santidade de João de Deus e a forma como o carisma da Hospitalidade marcou o seu próprio caminho.
O que representa, para si, a canonização de São João de Deus?
A canonização é um reconhecimento público da Igreja, uma forma de dizer ao mundo que aquele homem viveu à imagem de Jesus Cristo.
João de Deus foi um leigo, e isso, no seu tempo, não tinha credibilidade para fundar uma obra.
As primeiras imagens dele mostram-no com o bastão do fundador, porque queriam deixar claro que, embora fosse um homem simples, era também um fundador como São Bento. Só mais tarde é que começou a ser representado com o doente porque esse é o verdadeiro centro da sua missão.Ser canonizado é ser espelho de Cristo. Por isso celebramos esta data para reavivar em cada um de nós o desejo de santidade, esse caminho de amor vivido no quotidiano.
São João de Deus ensinou-nos que ser santo é simples: é fazer as pequenas coisas com um amor imenso.Como quando carregava às costas os alimentos para os doentes ou quando cuidava dos mais frágeis com gestos tão discretos que ninguém via.
É nessas pequenas ações que está a verdadeira grandeza.O que levou S. João de Deus a ser reconhecido como Santo?
Ele abriu um caminho novo. Na altura, quem fazia caridade eram, normalmente, os ricos, que tinham uma salinha em casa para ajudar os pobres. Mas João de Deus fundou um Hospital, um espaço organizado, com salas separadas conforme a doença, com roupa limpa e esterilizada.
Usava a barrela, uma mistura de cinza e água quente, para lavar a roupa. Não se conheciam ainda os micróbios, mas ele já tinha um cuidado extraordinário com a higiene e a dignidade das pessoas.Além disso, trabalhava com colaboradores, os “benfeitores” e contava com todos. Era um homem de fé, mas também de organização. Sabia envolver os outros, sensibilizar, motivar. Ia pedir ajuda à corte, caminhando centenas de quilómetros, e distribuía o que recebia pelos mais pobres. Era generoso ao ponto de regressar sem nada, porque tudo tinha partilhado no caminho.
A Igreja reconheceu nele uma nova forma de santidade: a da Hospitalidade vivida no concreto da vida.Quais os traços mais marcantes da sua santidade?
A humildade e a caridade.
- João de Deus escutava o conselho espiritual de S. João de Ávila, que o ajudou a discernir a sua vocação. Era um homem obediente à voz de Deus e ao mesmo tempo muito atento às pessoas. O seu método era simples: corrigir com amor.
Há uma história bonita: quando foi internado num Hospital ainda em processo de conversão, criticava os enfermeiros pelas suas atitudes. Mas o seu confessor disse-lhe: “Em vez de criticar, elogia o bem que vês.” E foi isso que ele fez. Começou a valorizar o que os outros faziam bem e essa mudança transformou o ambiente à sua volta.
O exemplo de S. João de Deus continua atual?
Muito atual.
Ele mostrou que a santidade passa pelos pequenos gestos, como ouvir um doente atentamente. Tudo isso é Hospitalidade.
A canonização dá brilho a esses gestos pequenos, que são grandes diante de Deus e diante do próximo.A Hospitalidade é isso: caminhar com o outro, com atenção e respeito.
Um doente, uma vez, agradeceu-me dizendo: “Padre Mariano, muito obrigado pela atenção.”
A palavra atenção é grande. Cabe lá tudo. É o amor em ação.Que valores da espiritualidade de S. João de Deus considera mais inspiradores?
O respeito e o amor. O amor é a única coisa que une as pessoas.
Se não houver amor, o nosso relacionamento resume-se a um “bom dia” e “boa tarde”.
Quando o amor entra, tudo muda. Mesmo os doentes mais frágeis percebem quando são tratados com ternura e com verdade.Aprendi a chamar “senhor” a cada pessoa internada. Porque muitos, por viverem com doença mental, nunca foram tratados assim.
Essa é a essência da Hospitalidade: reconhecer a dignidade em cada ser humano.Como viveu esta vocação ao longo da sua vida?
Com muita alegria.
Foram mais de setenta anos de serviço e, em todos os lugares onde estive encontrei motivos de gratidão. Em todo o lado aprendi que ser Irmão de S. João de Deus é viver com simplicidade e amar sem medida.
As alegrias vieram sempre através das pessoas, dos doentes, dos colaboradores, das famílias. Cada história é um pedaço de Deus que se revela.Que mensagem gostaria de deixar à Família Hospitaleira neste dia?
A canonização é como um espelho que colocamos à nossa frente.
Olhamos e tentamos parecer mais belos. Não por vaidade, mas por querer refletir a luz de Deus.
Ser hospitaleiro é isso: dar brilho ao espelho da santidade.
Cada vez que cortamos as unhas a um doente, que limpamos um rosto, que oferecemos uma palavra de consolo, estamos a dar brilho a esse espelho.
A santidade não está longe; está nesses gestos simples e amorosos.
É assim que continuamos a fazer de S. João de Deus um Santo para todos os tempos. - João de Deus escutava o conselho espiritual de S. João de Ávila, que o ajudou a discernir a sua vocação. Era um homem obediente à voz de Deus e ao mesmo tempo muito atento às pessoas. O seu método era simples: corrigir com amor.












