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S. Rafael - Inspiração no cuidado e Hospitalidade
29 of September of 2025
No Dia de São Rafael Arcanjo, patrono do Instituto S. João de Deus – Angra do Heroísmo, (Casa de Saúde de S. Rafael), celebramos o testemunho vivo de fé e missão que inspira diariamente colaboradores, utentes e toda a comunidade. Nesta entrevista o Diretor do Centro, Marco Pavão, reflete sobre a presença deste “Irmão Maior” que guia, protege, cura e marca de forma profunda a vida da instituição e de todos os que dela fazem parte.
O ISJD-Angra do Heroísmo (Casa de Saúde de S. Rafael) celebra hoje o seu patrono. Que significado tem S. Rafael para a família hospitaleira de Angra do Heroísmo?
São Rafael Arcanjo assume um lugar central na família hospitaleira de Angra e é inspirador nas dimensões de acompanhar, proteger e curar. Guia-nos e inspira-nos, tal como fez a São João de Deus, na prossecução da missão desta nossa família, que é a de ajudar todos os que sofrem. Ter como patrono desta Casa de Saúde este nosso Irmão Maior acrescenta-nos ainda uma maior responsabilidade no cuidar.
Na Ilha Terceira, e em geral nos Açores, a população não consegue dissociar o nome do Arcanjo S. Rafael desta nossa casa de saúde que, por ter sido a terceira casa da Ordem Hospitaleira em Portugal, permitiu mais tarde que se formasse a Província.Quando pensa em S. Rafael, que imagem ou palavra lhe vem de imediato ao coração?
Sendo natural da Ilha Terceira, cresci a associar São Rafael à Casa de Saúde e à doença mental, mas de uma forma superficial, sem grande alcance ou noção do seu significado. Tudo mudou em 2008, quando o meu destino profissional se cruzou com o propósito de cuidar dos Irmãos de S. João de Deus. Agora, o que me vem logo à cabeça são os utentes que estão ao nosso cuidado e a família de colaboradores que os cuidam. Penso numa casa que acolhe e que é como um coração que bate forte, que fervilha de uma vida complexa, intensa e animada, e onde, mesmo com dificuldades, o passado dá sentido ao presente e impulsiona um futuro que se pretende de respeito e dignidade para com as pessoas com doença mental.S. Rafael é conhecido como guia e companheiro de viagem. De que forma esta dimensão inspira o trabalho diário no ISJD – Angra do Heroísmo?
Nós somos companheiros de viagem de muitas pessoas com doença/deficiência mental ou dependência alcoólica, que carregam diariamente o peso de um sofrimento invisível, com ou sem apoio da sua família, e que lutam contra estigmas e fragilidades da vida, na procura de paz interior e inclusão. O nosso papel é criar respostas adequadas, orientar no caminho a seguir, dar esperança e caminhar lado a lado. Somos também companheiros da viagem profissional de todos os nossos colaboradores e, por isso, cabe-nos acarinhá-los, reconhecê-los e valorizá-los, dando-lhes tudo o que necessitam para bem cuidar.
Se pudesse descrever o que significa “caminhar com S. Rafael” no contexto do ISJD-Angra do Heroísmo, como o explicaria?
Para mim, caminhar com São Rafael é sermos todos um só. É não deixar que ninguém se sinta sozinho na missão de cuidar. É não deixar que ninguém se sinta sozinho na eventualidade de ter de ser cuidado. É cuidar com empatia, dignidade, alegria e esperança. É dar competências e formação contínua aos colaboradores para que, de forma humilde, cuidem como família, se apoiem uns aos outros em equipa multidisciplinar, construam um ambiente de confiança, respeito e amizade e prestem cuidados de qualidade e humanizados. É tentar dotar a estrutura física da Casa de condições de excelência. É dar voz a quem não tem voz.O Arcanjo Rafael é também associado à cura e à proteção. Em que medida esta missão se reflete nos cuidados prestados diariamente?
Diariamente estamos comprometidos com todas as necessidades físicas, emocionais e com o bem-estar espiritual de cada uma das pessoas que temos ao nosso cuidado, respeitando a sua fé e valores. Tentamos garantir ambientes seguros, prevenir situações de risco, ser presença atenta e compassiva e criar vínculos de confiança. Todos os colaboradores entendem que devem cuidar como gostariam de ser cuidados. Ao nível da gestão de topo, para além de zelar para que tudo isso não falhe, cabe também articular e lutar para que cada vez mais seja valorizado e reconhecido o papel da Instituição na comunidade, e para que o investimento nesta área da saúde seja adequado às reais necessidades das instituições e das pessoas.Há algum momento ou experiência concreta na instituição em que tenha sentido de forma especial a presença de S. Rafael?
Todos os dias, de uma forma ou de outra, gosto de pensar que São Rafael caminha a meu lado, ao nosso lado. Quando, de forma autónoma, ponderada, mas corajosa, desafiamos o passado e as dificuldades financeiras do presente para continuar a construir com paixão o futuro da hospitalidade na Ilha Terceira, através de um investimento muito grande e sem apoio governamental na remodelação das estruturas físicas do Centro, senti, sem dúvida, essa presença. São desafios e decisões onde, por vezes, descobrimos forças que não sabíamos possuir. O dia 29 de setembro de 2023, dia da inauguração das unidades de internamento remodeladas na Casa de Saúde de S. Rafael, que significaram um virar de página na nossa qualidade assistencial, foi o testemunhar de um sonho, onde senti claramente essa presença.Na sua perspetiva, como é que os colaboradores se identificam com os valores de S. Rafael no seu dia a dia?
De uma forma geral, essa identificação é clara, quer nos que prestam cuidados de saúde de forma direta, como enfermeiros, médicos ou auxiliares de ação médica, quer em todos os demais nos serviços secundários e de suporte. São exemplos disso a escuta ativa, o acolhimento com empatia, a promoção da segurança e saúde, as orientações e os esclarecimentos prestados, a promoção de hábitos de vida saudáveis, a ética e o rigor, e a colaboração em equipa.Como é que a espiritualidade ligada a S. Rafael ajuda a enfrentar os desafios e dificuldades quotidianas?
São Rafael é visto como guia e guardião. Quem acredita e tem fé, está acompanhado por um anjo de Deus, e esse acreditar e essa esperança são, na Instituição, reforçados por todo o acompanhamento espiritual que é efetuado aos utentes, quer pela assistente espiritual, quer pelo capelão da Instituição e pelos próprios Irmãos da Comunidade de Angra. O diagnóstico espiritual que é efetuado e o acompanhamento diário ajudam a cuidar da pessoa de forma integral, no corpo, na mente, no coração e no espírito.O que distingue o espírito desta unidade?
O que entendo que nos distingue é o compromisso em tentar fazer sempre mais e melhor, aliando a excelência técnica dos nossos profissionais ao contínuo investimento na estrutura, e não ter receio em abraçar novos desafios. Pretendemos ser uma das referências no cuidar nos Açores e gostamos de pensar que já estamos perto de o ser em algumas áreas. Ao longo dos últimos tempos, tem-se também registado uma renovação natural de colaboradores, quer por saídas ou por necessidades de reforço dos serviços, e esse sangue novo tem-nos permitido ter uma ainda maior abertura à comunidade, o que dá cada vez mais visibilidade à Casa. No fundo, tentamos implementar uma dinâmica muito própria na Instituição. Quem priva de perto connosco, ou nos acompanha com interesse, consegue perceber que diariamente tentamos derrubar muros e barreiras, construir pontes e abraçar novos desafios.O que gostaria que todos os que entram nesta Casa sentissem em relação a S. Rafael?
Tratando-se de um hospital especializado, tudo fazemos para que os que entram se sintam o mais em casa possível. Falo, por exemplo, em conforto e familiaridade, decoração e rotinas, autonomia e participação, relações humanas, qualidade, respeito e segurança, quer para utentes, quer para colaboradores. A nossa responsabilidade é muito grande para com doentes, famílias, colaboradores e para os demais stakeholders. O que nos dizem os nossos resultados de desempenho organizacional de 2024 é que 99% dos utentes e 100% dos familiares/cuidadores/voluntários/parceiros/fornecedores apresentam uma avaliação global positiva da Instituição, e que 96% dos colaboradores se sentem reconhecidos pelo seu esforço, dedicação e trabalho. São boas evidências.Que mensagem gostaria de deixar à comunidade (utentes, familiares, colaboradores, voluntários) neste dia de celebração?
A Casa de Saúde São Rafael caminha a passos largos para a celebração do seu centenário (2027). Ao longo de quase 98 anos de história, a Instituição fez muito em prol da sua comunidade, em prol de todos os utentes dos Açores, e compromete-se a continuar a fazer. Algumas vezes sentiu que caminhava pouco acompanhada ou pouco reconhecida e valorizada por quem de direito nos Açores. O estigma da doença mental que temos tentado combater, nomeadamente sensibilizando e tentando educar as novas gerações, também não desaparece de um dia para o outro. Estou certo de que, em comunhão com a comunidade açoriana, fortaleceremos a saúde mental, o bem-estar e a inclusão, construindo uma sociedade mais humana, solidária e acolhedora. Acreditem!Finalmente, olhando para o futuro, de que forma acredita que S. Rafael continuará a ser inspiração e guia para o ISJD-Angra do Heroísmo?
Estão a ser dados passos sólidos para a construção do futuro da Instituição. Cada vez mais os utentes e as famílias nos dizem que a organização interna existente, os recursos humanos e as instalações lhes dão garantias de cuidados de qualidade e de referência. O mesmo acontece com os demais parceiros. Os desafios são constantes num mundo em mudança. O inevitável envelhecimento da nossa população, entre outros fatores sociais e de saúde, fará com que a comunidade precise cada vez mais destas tipologias de resposta e, por tal, com mais ou menos dificuldades, as asas de São Rafael continuarão a servir de abrigo e segurança, amparo e conforto a todos os doentes.












