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Com Hugo Lucas e Márcia Fonseca no Dia Nacional do Psicólogo
04 de Setembro de 2025
Psicologia com razão e coração - Uma conversa com Hugo Lucas e Márcia Fonseca
No Dia Nacional do Psicólogo abrimos espaço para uma conversa inspiradora entre dois psicólogos do Instituto S. João de Deus: Márcia Fonseca, psicóloga e coordenadora do Serviço de Reabilitação Psicossocial e dos Projetos Comunitários Home360+ e CuiDando no ISJD–Telhal, e Hugo Lucas, psicólogo e coordenador da Equipa de Apoio Psicossocial e Espiritual (EAPS) no ISJD–Lisboa e Carnaxide.
Juntos, refletem sobre o caminho que os levou à Psicologia, os desafios da prática clínica, a importância de cuidar dos cuidadores e o papel único da Psicologia numa instituição como o ISJD.
Esta conversa recorda-nos que ser psicólogo é, antes de mais, estar inteiro para o outro, com ciência, com consciência e com compaixão.
Como é que o vosso caminho vos levou à Psicologia?
Márcia Fonseca: Não cheguei diretamente à Psicologia. Foi um caminho. Tive a sorte de entrar no ISPA, para uma licenciatura que não era em Psicologia, mas que permitia contacto com essa área, pois as bases eram da psicologia. Comecei depois a trabalhar no Telhal e foi esse contexto, a par do meu caminho de desenvolvimento pessoal, que me levaram a querer aprofundar conhecimentos e perceber melhor os modelos teóricos e as práticas da Psicologia. Hoje, a Psicologia apaixona-me porque junta duas coisas que me dizem muito: a curiosidade e o desejo de perceber o que está por trás daquilo que me é mostrado. O que está para além do comportamento? Quem é a pessoa por detrás do sintoma? E a ajuda ao outro. É isso que me move.
Hugo Lucas: A Psicologia nunca foi a minha primeira opção. A Psicologia apareceu como hipótese na fase de candidatura à Universidade e acabei por entrar. No primeiro ano da faculdade pensei várias vezes em desistir, mas houve uma cadeira — Bases Neurofisiológicas dos Processos Mentais — que era muitíssimo interessante porque era a transposição entre o funcionamento do sistema nervoso central, o sistema nervoso parassimpático, as funções cognitivas superiores e o comportamento humano. A partir daí, fui ficando.
O ponto de viragem foi a cadeira de Psiquiatria de Adultos, que me fez perceber que queria trabalhar nesta área, com pessoas doentes e em contexto hospitalar. Fiz o meu estágio final no IPO de Lisboa nas áreas de radioterapia e dor e depois fui para o Hospital de S. José onde trabalhei com doentes oncológicos, em neurocirurgia e em cuidados intensivos. Foi aí que me confrontei com o sofrimento real, com famílias a despedirem-se, com doentes em morte cerebral. E percebi que queria continuar por esse caminho.
Mais tarde, optei por me dedicar em exclusivo aos cuidados paliativos e estou nessa área há 14 anos. A minha motivação está muito ligada a isso: poder acompanhar pessoas quando mais precisam e quando o sofrimento é maior.
Quais são os vossos maiores desafios atualmente?
Márcia Fonseca: Neste momento não exerço funções de psicologia diretamente com os utentes, no ISJD mas a Psicologia continua presente na gestão das equipas e no pensar dos projetos. O desafio é motivar, ler as dinâmicas, perceber as intersubjetividades que influenciam o amadurecimento das equipas, identificar os pontos fortes de cada pessoa e perceber como é que esses talentos podem servir o propósito comum.
Também colaboro na definição de intervenções com os utentes, quando discutimos os casos clínicos. Importa perceber quem está por trás do diagnóstico, qual é a história dessa pessoa, em que fase está da sua vida e pensar com as equipas as melhores metodologias para ajudar essa pessoa.
Hugo Lucas: O meu desafio divide-se em dois grandes blocos. Um deles é coordenar uma equipa de psicólogos e assistentes sociais altamente especializada que atua em três frentes: intervenção clínica direta com doentes e famílias, investigação e formação. A minha responsabilidade é manter esta engrenagem a funcionar em alto rendimento.
O outro desafio é pessoal, enquanto psicólogo em cuidados paliativos. Muitas vezes temos apenas uma ou duas sessões com a pessoa antes da sua morte. A intervenção tem de ser rápida, eficaz e, acima de tudo, com sentido. A complexidade emocional, psicológica e espiritual destas situações exige uma enorme capacidade de escuta, atualização constante de conhecimentos e uma atenção profunda à dignidade e ao sofrimento de cada pessoa.
O que é que vos diferencia enquanto psicólogos do Instituto S. João de Deus?
Hugo Lucas: Há dois valores do Instituto que estão profundamente ligados ao nosso trabalho: a Hospitalidade e a Espiritualidade. Nenhum psicólogo trabalha sem Hospitalidade, no sentido de acolher o outro, nem sem compaixão. E, especialmente nos cuidados paliativos, a espiritualidade é essencial: a busca de sentido e de propósito está no centro da resposta ao sofrimento existencial.
Estar neste contexto institucional aumenta a nossa responsabilidade. Somos chamados a ajudar a construir pontes entre a dor e a paz interior, entre o sofrimento e a esperança.
Márcia Fonseca: Concordo totalmente. A centralidade da pessoa está presente em todas as áreas do Instituto. Trabalhamos com a pessoa não com seu o diagnóstico. E, isso implica uma disponibilidade emocional e física para acolher o outro, mas, também uma responsabilidade pessoal de me conhecer e perceber até que ponto as minhas lentes influenciam a forma como leio e acolho a pessoa.
Como é que veem o futuro da Psicologia dentro do ISJD?
Márcia Fonseca: A Psicologia terá sempre lugar numa instituição de saúde. Acredito que o futuro passa por consolidar o trabalho feito, mantermo-nos atualizados e continuar a inovar. Há muitas formas de fazer diferente. No ISJD-Telhal, por exemplo, para além do trabalho direto com os utentes, o psicólogo poderá ter um papel muito importante junto das equipas alargadas, ajudando-as a pensar estratégias para lidar com situações desafiantes, com comportamentos disruptivos, com processos de reabilitação. E a Psicologia pode e deve estar também ao serviço dos profissionais.
Hugo Lucas: Concordo. A Psicologia nunca será substituída, mesmo com os avanços da inteligência artificial. Mas devemos saber integrar essas ferramentas, nomeadamente em contextos de demência, neuropsicologia ou comunicação aumentativa. Precisamos de continuar a evoluir.
Defendo, há muito, a criação de um Serviço de Psicologia no ISJD com uma coordenação própria. É fundamental que nos organizemos, que definamos boas práticas, que nos encontremos enquanto grupo profissional.
E quanto ao bem-estar dos colaboradores, existe espaço para evoluir nessa área?
Márcia Fonseca: Sim, e é urgente. Cuidamos muito bem dos outros, mas muitas vezes esquecemo-nos de cuidar de nós. É preciso olhar para os colaboradores como pessoas com diferentes necessidades e motivações e, não como uma massa uniforme. E há muitas formas de promover saúde mental e bem-estar que podem passar por disponibilizar consultas de psicologia, mas não se ficam por aí, passam por proporcionar, dentro das necessidades de cada um, o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, medidas que podem ser diferentes de colaborador para colaborador, fazendo com que estes se sintam reconhecidos e proporcionando um bem-estar integral, sistémico.
Hugo Lucas: Precisamos de um gabinete de saúde ocupacional que vá para além das consultas de medicina do trabalho. Que pense na pessoa, colaborador, como um todo. E precisamos, sim, de psicólogos das organizações no departamento de Recursos Humanos. Profissionais capacitados para ajudar a construir ambientes de trabalho saudáveis, humanos e produtivos. Isso também é Psicologia. E é urgente.
Se tivessem de descrever o que é ser psicólogo em três palavras, que palavras escolheriam?
Márcia Fonseca: Ouvir, elaborar e ajudar a transformar.
Hugo Lucas: Escutar, ser testemunho de esperança e ser compassivo.
Que mensagem gostariam de deixar neste Dia do Psicólogo?
Hugo Lucas: Para quem está a pensar procurar um psicólogo: não hesitem. Encontrarão um espaço de escuta e apoio. Para quem quer ser psicólogo: é importante perceber onde está a vossa vocação e com que pessoas se identificam. Mas, acima de tudo, é fundamental fazerem o vosso próprio processo terapêutico. Conhecerem-se. A relação terapêutica só se constrói com verdade e com conhecimento de si mesmo.
Márcia Fonseca: Concordo. Aprendemos muito estando do outro lado. É preciso conhecermo-nos, percebermos o que é nosso e o que é do outro e isso só se faz com um trabalho pessoal profundo e com supervisão contínua. No ISJD temos vindo a trabalhar nesse sentido e isso é fundamental para sermos melhores profissionais.












