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  • Paulo Reis Pina - Precisamos de falar sobre a vulnerabilidade

    25 de Agosto de 2025

    Escutar e Auscultar, com Paulo Reis Pina

    Diretor do Centro de Medicina Paliativa, Regente de Cuidados Paliativos no Mestrado Integrado em Medicina e Membro da Comissão Científica do Mestrado em Cuidados Paliativos – Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

     

    In Revista Hospitalidade 347

    Em que estado está a formação em cuidados paliativos em Portugal?
    Ao longo dos anos, tem havido um grande investimento em formação nesta área. Praticamente todas as universidades públicas e privadas e politécnicos oferecem mestrados, pós-graduações e cursos avançados em cuidados paliativos. Logo, existe uma boa oferta e também uma procura crescente. No entanto, o verdadeiro desafio está em saber o que acontece a esses profissionais depois da formação. Existem muitos especialistas treinados, mas nem todos estão a trabalhar na área.
    Quais são os principais desafios para fixar os profissionais?
    Penso que há um conjunto de fatores em jogo. Muitos médicos e enfermeiros procuram estabilidade profissional e atualmente os paliativos não oferecem uma carreira consolidada. Existe também a questão da remuneração: será que os salários oferecidos são adequados? Será que a estrutura organizacional incentiva os profissionais a dedicarem-se exclusivamente a esta área?
    Além disso, assiste-se a um fenómeno preocupante: muitos médicos e enfermeiros dizem que trabalham em paliativos, mas dedicam apenas algumas horas por semana à área. Isto não é o ideal. Precisamos de equipas fixas, estáveis e totalmente dedicadas, é preciso compromisso e dedicação contínua.
    Os cuidados paliativos podem aliviar a sobrecarga dos hospitais?
    Se tivéssemos uma rede bem estruturada, muitos destes doentes não precisariam de recorrer às urgências. Acontece que, como a referenciação para cuidados paliativos ainda é tardia, estes doentes acabam por procurar os hospitais porque não têm outra opção. Se existisse uma transição bem organizada entre o hospital e a comunidade, poderíamos evitar muitas dessas situações.
    Como podemos sensibilizar a sociedade para a importância destes cuidados?
    A mudança tem de começar em casa. Precisamos de falar sobre a nossa vulnerabilidade e a possibilidade de termos uma doença grave. Isso ajuda a construir uma sociedade mais consciente e empática. As escolas também podem ter um papel fundamental. A introdução do tema nas aulas de cidadania, por exemplo, ajudaria a normalizar a discussão sobre a finitude da vida. Além disso, as juntas de freguesia, centros de saúde e hospitais podem organizar ações de sensibilização para mostrar que os paliativos não são sinónimo de morte iminente, mas sim de qualidade de vida.
    Isto significa que os cuidados paliativos não são apenas para doentes em fim de vida?
    Esta é uma das maiores confusões sobre a medicina paliativa. Os paliativos servem para melhorar a qualidade de vida, independentemente da fase da doença. Por exemplo, uma mulher com cancro da mama diagnosticado precocemente pode ter vómitos intensos e dor devido à quimioterapia. Um paliativista pode ajudar a controlar esses sintomas e permitir que ela continue o tratamento com maior conforto. Quando o cancro estiver curado, ela já não irá continuar a precisar destes cuidados. Nos países mais avançados, os paliativos são introduzidos cedo no processo terapêutico, ajudando os doentes a viver melhor e, muitas vezes, até por mais tempo. Há estudos que demonstram que doentes que recebem cuidados paliativos precocemente vivem, em média, mais três meses do que aqueles que não os recebem. Isto deve-se ao facto de terem melhor controlo dos sintomas e menor sofrimento.
    Como imagina o futuro destes cuidados no nosso país?
    Sou otimista. Acredito que a sensibilização da sociedade e a formação dos profissionais de saúde vão ajudar a integrar os cuidados paliativos no sistema de saúde de forma mais eficaz. Precisamos de um modelo bem articulado, onde os paliativistas trabalhem em conjunto com médicos de família, oncologistas, cardiologistas e outros especialistas. Também é fundamental que os hospitais tenham unidades de cuidados paliativos e que existam equipas comunitárias a dar suporte no domicílio.
    Além disso, o reconhecimento da medicina paliativa como especialidade médica ajudaria a fixar profissionais e a garantir uma resposta mais estruturada e acessível para todos os doentes. Os cuidados paliativos não são apenas sobre morrer bem, mas sobre viver bem até ao fim. Precisamos de trazer esta mensagem para a sociedade e garantir que ninguém sofra desnecessariamente por falta de acesso a uma assistência adequada.
    O que significa viver bem até ao fim?
    Trata-se de respeitar a autonomia da pessoa até ao fim. É por isso que falo da importância dos testamentos vitais e das diretivas antecipadas de vontade. Todos deveríamos tomar decisões sobre o nosso futuro enquanto temos essa capacidade porque podemos chegar a um ponto em que já não conseguimos expressar as nossas vontades. A boa morte é aquela que acontece segundo as condições determinadas pelo próprio. Quando ocorre no local escolhido, com as pessoas escolhidas, sem que ninguém viole as suas determinações, seja em relação ao uso de tratamentos invasivos, transfusões de sangue ou suporte artificial de vida.
    Porque é que ainda se fala pouco sobre cuidados paliativos?
    Porque continuam a ser vistos como um sinónimo de desistência. Ninguém hesita em dizer que levou o pai ao cardiologista ou ao neurologista, mas quase nunca ouvimos alguém dizer que foi a um paliativista. O termo ainda assusta, porque a sociedade continua a negar a inevitabilidade da morte.
    São vistos como um último recurso?
    Infelizmente, sim. E isso é um erro. Se integrássemos os paliativos mais cedo no percurso clínico de um doente com doença grave, conseguiríamos aliviar o sofrimento, melhorar a qualidade de vida e até prolongá-la. Se aceitarmos que cuidados paliativos não significam desistência, mas sim um suporte adicional, podemos melhorar substancialmente a vida dos doentes e das famílias.
    O que significa, afinal, ser paliativista?
    Paliar significa proteger, abrigar, confortar. A palavra vem do latim pallium, um manto usado na Roma Antiga. Hoje, o Papa ainda usa um pálio, que simboliza proteção. E é exatamente isso que fazemos na medicina paliativa: não abandonamos o doente, protegemos a sua dignidade e aliviamos o seu sofrimento. Algumas pessoas precisarão de cuidados paliativos durante muito tempo. Outras apenas por um curto período. Mas todas têm direito a uma morte digna, com conforto e respeito.

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