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Qual é a identidade dos cuidados paliativos: vale a pena lembrar
19 de Agosto de 2025
Pensamento livre
por: Isabel Galriça Neto, Diretora do Departamento de Cuidados Continuados e Paliativos no Hospital da Luz-Lisboa
Apesar de ainda recentes na História da Medicina Moderna, os Cuidados Paliativos (CP) já têm mais de 60 anos de desenvolvimento e prática, desde que Dame Cicely Saunders os sistematizou e preconizou em Inglaterra, para responder a uma realidade chocante: à luz de uma certa visão da Medicina, triunfalista e heroica, os doentes que não se curavam eram deixados para trás, quase como párias, no sistema de saúde.
Os CP constituem uma abordagem técnica e humanizada essencial no campo da saúde, voltada para a melhoria da qualidade de vida de pacientes que enfrentam doenças graves, progressivas e ameaçadoras à vida, independentemente do seu prognóstico, que pode ser de anos, meses ou semanas. Ao invés da medicina curativa, que busca a erradicação da doença e se socorre de medidas mais agressivas, os CP priorizam o alívio e intervenção no sofrimento físico, emocional, social e espiritual, tanto para os pacientes, quanto para as suas famílias. Num contexto em que, por um lado, vimos assistindo ao aumento da longevidade das pessoas com doenças crónicas e de evolução prolongada e, por outro, uma larga faixa da sociedade (público em geral e profissionais de saúde) desconhece o que verdadeiramente são os CP, clarificar a sua identidade é fundamental para garantir um acesso alargado e adequado a estes cuidados de saúde humanizados e rigorosos.
Os CP são um tipo específico de cuidados de saúde e de tratamento e respondem precisamente à ainda tão propagada ideia de que, quando não podemos curar, já nada temos para oferecer. As várias definições que têm surgido nas últimas décadas acentuam que a oferta de CP se faz com base nas necessidades do paciente (decorrentes do sofrimento) e não com base nos diagnósticos ou nos prognósticos. Os CP não devem ser reservados para os doentes com cancro ou apenas para os que estão a morrer.
A identidade dos cuidados paliativos está alicerçada no respeito pela dignidade da pessoa, reconhecendo que cada indivíduo possui valores, crenças e necessidades únicas. Não pretendem encurtar ou prolongar a vida do paciente e aceitam a inevitabilidade da morte. Ao contrário da visão reducionista da morte como um fracasso da medicina, os CP consideram-na como uma fase natural da vida e não servem assim para ajudar a morrer, servem antes para cuidar, tratar e ajudar a viver até o paciente morrer, prolongando-se o apoio à família pelo período do luto.
Os CP seguem princípios essenciais que norteiam a sua identidade e prática:-
Centram-se nas necessidades das pessoas doentes e não na doença – o tratamento é global, a assistência não se limita ao aspeto físico da doença, mas também considera as dimensões emocionais, sociais e espirituais do indivíduo.
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Alívio da dor e de outros sintomas – o manejo adequado da dor, dispneia, fadiga, náuseas e outros sintomas é um dos pilares dos CP.
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Afirmação da vida e aceitação da morte como um processo natural – a abordagem paliativa não busca antecipar nem adiar a morte, mas sim proporcionar qualidade de vida até ao fim.
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Suporte à família – os familiares desempenham um papel crucial no cuidado ao paciente e também necessitam de apoio, inclusive no período do luto.
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Trabalho em equipa multi e interdisciplinar – a atuação de profissionais de diversas áreas, como médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e terapeutas, é essencial para oferecer um cuidado abrangente.
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Atenção precoce e contínua – os CP podem ser iniciados desde o diagnóstico de uma doença grave e incurável, sendo compatíveis com tratamentos que visam prolongar a vida, respeitando um modelo de baixa invasibilidade de medidas.
O que a investigação e a realidade hoje nos mostram é que, para além da resposta mais adequada para os doentes com doenças graves e incuráveis, estes cuidados não encurtam a vida dos doentes. São também mais eficientes, evitando internamentos e tratamentos desnecessários, não contribuindo para gastos excessivos e desproporcionados no último ano de vida dos pacientes. Não se trata de querer poupar, trata-se de querer gastar bem, de forma tecnicamente correta e humanizada.
Ciclicamente, e estamos a atravessar novamente uma dessas fases, muito numa atitude de não aceitação da morte e de endeusamento da medicina, surge a ideia distorcida de que os progressos técnicos obrigam a que até muito tardiamente no curso da doença se recorra a tratamentos mais invasivos. Por exemplo, alguns dos novos tratamentos para o cancro, que proporcionam aumento de intervalo livre de doença, mas não obrigatoriamente com mais taxas de cura, não podem fazer com que os doentes cheguem tardiamente aos CP nem que se pretenda distorcer a natureza e os princípios dos mesmos. Trazer doentes mais precocemente para receberem CP não deve nem pode – à custa de mais sofrimento para os doentes – significar adotar uma abordagem própria dos cuidados a doentes agudos, centrada na doença e nos múltiplos exames complementares de diagnóstico, e em maior invasibilidade. Existe muita confusão, alguma impreparação e talvez excesso de egos. E quem perde com isso são os doentes e o sistema de saúde.
Lamento, ao fim dos meus mais de 30 anos de prática e de um alargado conhecimento da realidade nacional e internacional, que, por falta de conhecimento e treino de alguns, se venha invocar para os CP um modelo de abordagem que não é o seu, completamente ao arrepio dos fundamentos que Cicely Saunders preconizou.
É por isso que vale a pena revisitar a identidade dos CP e relembrar que a sua inclusão nos sistemas de saúde modernos é mandatória, desde os cuidados de saúde primários, com equipas de apoio comunitário e domiciliário, nas ERPI’s e lares, até unidades de internamento ou equipas de suporte em hospitais de agudos.
Fundamental é que se ultrapasse a desigualdade que perdura há demasiado tempo no acesso a estes cuidados de saúde tão necessários. Lamentavelmente hoje, 70% dos milhares de portugueses que necessitam não têm acesso a eles. E isso é que é fraturante e nos devia envergonhar.
É imprescindível que, de forma alargada, governos, profissionais de saúde e a sociedade em geral promovam a expansão e a qualificação da abordagem dos CP, assegurando um direito constitucional e que todos possam viver com conforto e dignidade até ao fim. -












