*Chamada para rede fixa nacional.
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Escolha de um envelhecimento saudável - será possível?
22 de Julho de 2025
Resumo
Este ensaio parte da psicologia positiva, de estudos de neurociência e de outra literatura para responder à questão: é possível a escolha do próprio envelhecimento saudável e ativo? Serão tidas em conta as condicionantes biológicas e psicológicas e o recurso a conceitos do funcionamento do cérebro e computadores. O envelhecimento saudável e ativo é uma recompensa desejável diferida, a conseguir por escolhas adequadas e mantidas desde cedo ao longo da vida. O sujeito operador procede por tentativas e erros, aprendizagem do seu hardware e software, biologia/cérebro/sistema nervoso/ mente/consciência. Dentro das margens de liberdade, decide como deseja envelhecer. Importam os modos de manter e confirmar a escolha para atingir esse objetivo. Por um lado, como operador, o indivíduo enfrenta e gere obstáculos, desvios, erros e armadilhas na sua manutenção saudável com alimentos, respiração, exercícios físicos, sono, redução de stresse e limpeza. Por outro lado, utiliza o software da mente/memória para adquirir conhecimentos e cultivar a harmonia na unidade do seu eu-personalidade rumo ao envelhecimento. O objetivo de envelhecer saudavelmente entra na categoria de recompensa longamente adiada; é fundamental decidir a partir de que idade respeitar o alvo da recompensa diferida para evitar paragens e desvios, erros e pecados no percurso. Apesar de objetivo difícil, o ensaio mostrará como é possível fazer escolhas adequadas e mantê-las para envelhecer com mais saúde, atividade e contentamento. Abrangerá quatro pontos: 1) manutenção da saúde, 2) escolha do modo de envelhecimento, 3) escolha atempada, 4) aprendizagem continuada e palavras finais sobre o sentido de vida.
Palavras-chave
Envelhecimento e cérebro, complexidade do computador, consciência, recompensa adiada, apreender na velhice.
Abstract
This essay starts from positive psychology, neuroscience studies and other literature to answer the question: is it possible to choose healthy and active aging itself? Biological and psychological conditions and the use of concepts of the functioning of the brain and computers will be taken into account. Healthy and active aging is a desirable deferred reward, to be achieved by adequate and maintained choices early in life. The operator subject proceeds by trial and error, learning its hardware and software, biology/brain / nervous system /mind / consciousness. Within the margins of freedom, decide how he wants to grow old. The ways of maintaining and confirming the choice to achieve this objective matter. On the one hand, as operator himself, he faces and manages obstacles, deviations, errors and pitfalls in its healthy maintenance with food, breathing, physical exercises, sleep, reduced stress and cleaning. On the other hand, it uses the mind / memory software to acquire knowledge and cultivate harmony in the unity of its self-personality towards aging. The goal of healthy aging falls into the long-delayed reward category; it is essential to decide at what age to respect the target of the deferred reward in order to avoid stops, detours, mistakes and sins along the way. Despite being a difficult objective, the essay will show how it is possible to make appropriate choices and keep them to age with more health, activity and contentment. It will cover four points: 1) maintenance of health, 2) choice of the way of aging, 3) timely choice, 4) continued learning and final words about the meaning of life.
Key words
Aging and brain, computer complexity, consciousness, delayed reward, learning in old age.
Introdução
A psicologia positiva, estudos de neurociência e outra literatura judaico-cristã mostram que é possível escolher um envelhecimento saudável, dentro de limitações biopsicológicas e sociais. A neurociência estuda o cérebro e compara-o aos computadores, sem negar ou provar cientificamente o livre-arbítrio, por este ser mais uma convicção do que uma evidência científica. As tradições bíblicas e religiosas, porém, não dispensam o livre-arbítrio, com graus de liberdade e responsabilidade.
As escolhas de objetivos são decisões seguidas de processos de execução. A escolha do envelhecimento saudável faz parte do sistema de recompensa diferida dependente da inibição de recompensas imediatas. O salário no fim do mês, um diploma de exames longamente preparados, reforma compensadora, pé-de-meia, saúde e harmonia são exemplos de recompensas diferidas; e, a nível superior, um sentido de vida com valores transcendentes, vida na verdade, bondade, beleza e relação pessoal aberta ao bem de todos são postos à frente de satisfações imediatas e narcisistas.
O envelhecimento saudável, ativo e feliz é objetivo adiado, preparado por escolhas adequadas, motivadas e mantidas ao longo de um número variável de anos. Cada pessoa tem pela frente o paradoxo de recompensas imediatas ligadas à dopamina e ao prazer. Os consumos excessivos de prazer funcionam como armadilha por dispararem esta molécula do prazer nos neurónios. As dependências e perdas de controlo levam o sistema nervoso a confundir prazer com bem e saúde, repete. Os romanos alertaram para os excessos com os adágios: in médium est virtus e anima sana in corpore sano, propondo autocontrolo e harmonia na unidade organismo-pessoa.
O dono opera o cérebro humano; o utilizador o computador. Por aprendizagem, tentativas e erros, o indivíduo aprende a conhecer-se e a usar adequadamente o cérebro, mais complexo que o computador. Duas questões: a) o hardware biopsicológico do cérebro permite liberdade para tomar decisões favoráveis à saúde? b) O software pessoal biologia/cérebro/sistema nervoso/mente[1] dispõe de funcionamento que assegure objetivos escolhidos pelo eu-consciência? Sim, se respeitar os modos de o “eu”-corpo-mente-consciência manter os processos facilitadores: tomar decisões acertadas, evitar erros e desvios na execução. Primeiro, não danificar a estrutura do hardware humano; e, segundo, conhecer e respeitar o funcionamento do software instalado e, terceiro, adquirir novos conhecimentos na mente/memória.
Quatro passos fundamentais
Em resumo, temos quatro pontos do percurso até ao envelhecimento escolhido e programado, saudável, ativo e feliz, quanto possível: 1) a manutenção saudável do hardware: corpo-cérebro-sistema nervoso; e do software de todos os sistemas e programas, antes e durante o envelhecimento; 2) uso correto do sistema livre-arbítrio e do sistema de recompensa diferida; 3) O tempo acertado de decidir o modo de envelhecer; 4) sistema aprendizagem e motivação.
1) Manutenção do corpo-cérebro-mente. A manutenção do bom estado de funcionamento do hardware biopsicológico, corpo-cérebro-mente, exige cuidados adequados e precisos de acordo com dados das neurociências, das ciências da saúde integral e as alternativas do sentido de vida.
A biologia do hardware hereditário do ADN condiciona o crescer e o envelhecer; permite, porém parcialmente, o envelhecimento saudável, ativo e relativamente feliz, dentro dos limites do organismo humano e de escolhas mantidas, favoráveis à saúde, atividade e contentamento.
Uma das escolhas mais relevantes é o equilíbrio de energia fornecida ao organismo. Cerca de uma em cada três pessoas, no Ocidente, sofre de doenças de obesidade e excessos de energia. Os excessos de peso corporal sobrecarregam e prejudicam os órgãos e sistemas do corpo-alma por excessos motivados por prazeres imediatos com descargas de dopamina a nível de cérebro-mente-emoções e prazer imediato. Estes excessos entram em círculo vicioso e interrompem o adiamento da recompensa do envelhecimento saudável. Os excessos constituem erros, vícios e pecados capitais, como descreve Jack Lewis no seu livro Ciência do pecado. A cultura tornou-se individualista/egocentrista, enaltecendo o narcisismo que Jack Lewis equipara ao primeiro pecado capital, orgulho e vanglória, e que Gregório Magno (séc. VI) considera raiz dos sete pecados principais[2]; posição confirmada por estudos do cérebro pela ressonância magnética (RM) considerados «pistas sobre aquilo que nos faz fazer o que não devíamos» (Lewis, 2018. P.28). O narcisismo desde há cem anos passou de epidemia a pandemia, promovida por estes métodos: 1- as celebridades são propostas como ídolos a seguir; 2- as «redes sociais como recreio do narcisista»; 3- práticas parentais como lisonja dos filhos; 4- cultivar a autoestima com práticas erróneas. Mais significativo é o facto de os consumismos se ligarem a alguma expressão de narcisismo e de algum pecado capital. Todos eles são excessivos nalgum aspeto, sempre com o fim de aumentar a autoimportância e os prazeres conexos (cf. Lewis, 2018. P203).
As escolhas a fazer dizem respeito a todos os excessos e não apenas à quantidade e à qualidade dos alimentos, bebidas e exercícios físicos e outros cuidados higiénicos para manter as funções, órgãos e sistemas em bom estado de funcionamento. Uma das armadilhas dos excessos da gula é o saber bem, dar prazer e descarregar a dopamina. A gula fornece excesso de energia e aumento de peso e de lixo orgânico. De acordo com um profissional: do que é bom (sabe bem) convém comer pouco. O mesmo princípio se aplica aos alimentos ditos saudáveis quase “remédios”. Faz bem à saúde, não em excesso. No uso de condimentos culinários, sal, açúcar, gorduras, carne, bebidas alcoólicas, etc., tão caros às gastronomias comerciais, a moderação seria também de regra para uma velhice saudável. Não faltam guias de educação alimentar para a saúde. Muitas das suas evidências científicas são, porém, frequentemente manipuladas por publicidade enganosa e interesseira. E os jovens são o alvo imediato a prender ao excesso. A barriga aumentada na juventude vai dar muito lucro às cadeias da fastfood.
«Uma vez estabelecido o hábito de comer em demasia, este torna-se muito difícil de mudar […]. Quando apresentadas provas de estratégias cínicas que as empresas multinacionais de produção de comida usam, os adolescentes sentem-se tipicamente ultrajados. Ao demonstrar que as grandes corporações lucram com o aumento perpétuo do perímetro das nossas barrigas e que percebem perfeitamente as consequências relevantes que este aumento tem para a saúde dos consumidores, a comida de plástico deixa de ser vista como uma fonte de inocente tentação e passa a ser vista como um escândalo vil» (LEWIS, 2018, p.209).
A energia dos alimentos e bebidas destina-se ao trabalho mental, manual, exercícios físicos, musculares, pulmonares, coração, intestinos e ainda à eliminação renal e intestinal. O coração, os músculos, os ossos e o cérebro precisam de ser exercitados regularmente para gastar a energia consumida e se manterem em boas condições. Os exercícios físicos, andar a pé e outras atividades, ajudam a respiração, a regularização dos intestinos, a eliminação intestinal e urinária. Se não é gasta na saúde, o excesso fica, como lixo, no organismo. A inatividade, o sedentarismo, a tentação de substituir a atividade manual por máquinas e a “preguiça” tornam-se fator de energia excessiva, obesidade e doenças. A inatividade mata tanto como o tabaco. Numa palavra, a “preguiça” como estilo de vida inativo ou sedentário, causa muitas doenças mesmo nos não obesos.
O sistema de manutenção abrange ainda o tempo de sono e a redução do stresse e ansiedade. O sono é trabalho, limpeza, arrumação, descontração, antistresse e preparação dos sistemas cérebro-mente-memória-consciência. Não é tempo perdido; sem sono suficiente o cérebro (a pessoa) não funciona bem; e, privado dele, pode morrer; o sono funciona como reciclagem de atividade subliminar (inconsciente só em parte). O sono faz parte do sistema de reciclagem de conteúdos de lixo mental; e, segundo os neurocientistas, faz parte do «sistema glinfático» para lavar moléculas danosas, como o péptido beta-amilase que abunda no síndrome Alzheimer. O sono e a inatividade equilibrada são aconselhados para reduzir o stresse e a agitação.
Mas atenção, o excesso de inatividade, sedentarismo por substituição da atividades manuais e exercício físico por máquinas, passam, na linguagem religiosa, a ser pecado de “preguiça”. A falta de atividade mata tanto como o tabaco. Um estilo de vida sedentário ou inativo conserva a energia excessiva no organismo, aumenta a obesidade e as doenças das coronárias, diabetes tipo 2, cancro do cólon e da mama. «A preguiça é oficialmente mais letal do que a gula», outro pecado capital; e mata o dobro da obesidade. (cf. Lewis, 2018, p.113).
O sono associado ao sonho e pesadelos faz a limpeza mental da consciência, ajuda a corrigir erros, vícios e pecados recalcados e desapercebidos; é catarse espontânea, «evacuação» e purificação emocional. Os sonhos no sono REM (rápidos movimentos dos olhos) são os mais ativos e criativos; ao acordar, algumas pessoas recordam e registam soluções sonhadas de problemas que os ocupavam e preocupavam.
Numa palavra, o funcionamento da unidade corpo mente (consciência-pessoa) é condicionado pelas emoções, coordena o desenvolvimento e os modos de envelhecer, de sentir, saber, estados de consciência e perceções, avaliação de si e as decisões livres, o querer e o realizar do envelhecimento. O software cerebral permite criar um programa personalizado para maximizar o funcionamento saudável do todo eu-corpo-mente (alma). Magrini chama-lhe a «fórmula pessoal, talvez inconsciente» (MAGRINI, 2019, p. 195). As investigações do cérebro com ressonâncias magnéticas (RM) sugerem que é preciso entender o que se passa no cérebro para, em vez de escolhermos fazer o que não devemos, escolhermos o que é melhor para uma vida saudável. E o que não devemos escolher tem a ver com a “ciência do pecado” e erros do funcionamento do cérebro. Nalgumas áreas do cérebro estudado com RM, os apetites dos sete pecados aparecem constantemente em cena, diz Jack Lewis. O narcisismo com sentimentos de excessiva autoimportância [orgulho] leva a:
«Irresistíveis apetites por comida [gula][3] e sexo [luxúria], o insaciável desejo de mais e tendência para cobiçar o que pertence a outros [avareza, ganância] e o desejo ardente de que percam a vantagem que têm sobre nós [inveja], até ao intoxicante impulso da vingança[ira]» e ainda vaidade e autoimportância por não ter que fazer nada [preguiça] (JEWIS, 2018, pp. 31-54 e 202e 113).
2) Uso do livre arbítrio no sistema das recompensas diferidas. Os programas instalados no cérebro permitem: sentir, experienciar sentimentos e afetos, saber, conhecer, estar consciente e a liberdade de decisão e atividades. As evidências científicas da medicina conseguidas por sondagens são conclusivas: mostram as probabilidades de vida saudável, validez, longevidade com menos doenças, quando se mantém decisões e atividades de saúde. As escolhas de saúde, confirmadas no sistema binário da linguagem de “computador” e do cérebro, são: sim e não, 0 e 1, em que 0=não e 1=sim, ou desfavorável/favorável ao objetivo. Quanto mais vezes as escolhas motivadas são confirmadas e mantidas pela ação, mais aumentam as probabilidades de se tornarem hábitos saudáveis. De contrário surgem os vícios de apetites irresistíveis que descarregam repetidamente a dopamina de prazer e se torna difícil de substituir por hábitos de virtude.
A prática de dezenas de anos nas terapias de alcoólicos e toxicodependentes, mostraram-nos com é difícil o treino dessas pessoas nas decisões e sua confirmação na reabilitação motivada pela recompensa adiada. Abster-se do consumo dependente e irresistível do álcool e da droga; tal como do jogo aleatório, da prisão obsessiva dos likes às redes sociais, jogos de consola, compras, pornografia, pedofilia e outras. Basta passar perto do bar, o gozo da bebida imediata faz esquecer a memória-representação da recompensa diferida de vida livre e pede mais dopamina. O treino de assertividade social em terapia destina-se a confirmar o objetivo adiado em contextos de estímulos e pressão imediata de amigos e de publicidade para não ceder à bebida, droga, compras, etc. Quando as sinapses e sistema nervoso começam a aquisição de hábitos saudáveis, a aprendizagem é mais livre; quando já estão radicados com descargas repetidas de dopamina os hábitos viciosos, é preciso desaprendê-los. Como? Substituindo-os, com repetição esforçada, por hábitos saudáveis, como acontece para corrigir as manobras erradas da condução de um carro. Para aprender e reaprender, a regra de ouro é repetir, repetir, mas o que é saudável. E o prazer virá depois.
A consciência-eu coordena todos os conteúdos mentais, faz escolhas, toma decisões e mantém-nas e confirma o envelhecimento a alcançar. Segundo Marco MAGRINI:
«A consciência é a coisa mais difícil do mundo porque não sabemos o que é. Pior, nem sequer sabemos defini-la. É a capacidade de perceber, de experimentar. É a subjetividade. É a consciência de si próprio e do ambiente. É o pensamento. É o livre-arbítrio. É o centro de comando da mente. É tudo isto e muitas outras coisas juntas» (MAGRINI, 2019, p.122).
Para tudo, o próprio eu utiliza o livre-arbítrio e «sistema operativo instalado» no sistema mental de recompensa adiada. É na consciência que o hábito aprendido se incorpora subliminarmente e dá motivação à recompensa adiada por entre as rotinas deterministas e as decisões de liberdade. Desde de todos os tempos, os homens mantiveram a convicção de usufruir de alguns graus de liberdade. Viviam a experiência de que ora faziam o que decidiam, ora de coisas que lhes aconteciam ou eram impostas. A existência do livre-arbítrio ou liberdade de decisão, contudo, alimenta contínuas polémicas, levando alguns a oscilar e atribuir o que fazem a si mesmos (autoatribuição); e outras vezes a seres estranhos e ao acaso (hétero-atribuição). Continua atual a resposta pronta que o jornalista e escritor Christopher Hitchens deu em público, sobre se acreditava no livre-arbítrio: «Não tenho outra alternativa» (cit. por Magrini, 2019, p.139). Não faltam, contudo, estudos a mostrar que negar o livre-arbítrio traz dano à saúde e à sociedade em que se vive. A saúde e o envelhecimento ativo dependem, grosso modo, uma em três vezes, do que cada pessoa faz por sua escolha, contra cerca de dois terços doutos efeitos que atribui a leis naturais, fatores agressores, internos e externos, e ao “não sei” do acaso. Exemplos não faltam, mesmo agora, dos infetados da pandemia Covid-19, os obesos parece que resistem menos. Teriam podido evitar ser obesos? Alguns, sim, se tivessem decidido. Poucos obesos, fumadores, bebedores, toxicodependentes e os dados a outros excessos chegam à velhice saudável.
Fica claro que escolher como se deseja envelhecer é possível. É fácil? Nem tanto. Para além de decisão, exige algum conhecimento do cérebro e sistema nervoso, aprendizagem continuada da saúde, como equilíbrio, para evitar erros e pecados contra a saúde, o cérebro-mente-consciência e a sociedade (cf. LEWIS, 2018, pp.26-30). As escolhas livres e o livre-arbítrio continuarão a ser matéria disputada por deterministas e libertários[4]. Por nós, não aceitamos a compatibilidade simples, mas a hipótese do agir humano alternante, ora determinado, de acordo com leis científicas, ora livre para além das leis da natureza conhecidas[5]. As escolhas livres estão na base da saúde, das relações civilizadas entre pessoas e relações transcendentes[6]; e da responsabilidade e sistemas de justiça. A teologia coloca o orgulho como raiz dos pecados capitais; os neurocientistas chamam-lhe narcisismo insaciável de apetites irresistíveis (ganância, likes, beber, jogar, fazer compras, etc.); excessos que reduzem a dor social da solidão e da carência exacerbada de admiradores provocando a produção de dopamina e os sentimentos de realização e grandeza (cf. Lewis, 2018, pp.201-209).
A unidade corpo-cérebro-mente (alma, espírito) funciona como o computador mais complexo que exista, mas é mais do que computador; está em relação com pessoas, o cosmos material e o transcendente espiritual (não científico). É unidade corpo-mente-espírito aberta à aprendizagem de conhecimentos das coisas materiais e suas leis; e mente-consciência aberta à revelação-intervenção do Espírito Uno Omnisciente, área tratada pela teologia, religião e fé cristã.
3) O tempo acertado de decidir. O quando tomar a decisão do tipo de envelhecimento que se deseja é desafio incontornável. Quando me perguntam, por ser idoso, o que podem fazer para chegar à minha idade, raramente pensam no quando começar. Quanto mais cedo se iniciar o programa formal ou informal, melhor; para evitar hábitos nocivos difíceis de substituir pelos saudáveis. Reforçar a motivação enriquece a memória de “pastas” do cérebro-mente-memória de aprendizagem multifacetada e gratificante.
Uma história. Um médico entendido em alimentação que vivia o que dizia e viveu até aos 95 anos, teve influência significativa no meu “quando” mais formal. Andava eu pelos 35 anos e falávamos com frequência. Um dia, indicou-me alguns modos de manter a saúde, entre os quais uma alimentação mais saudável a tender para o vegetariano, sem o ser: «carne, dizia, basta duas ou três vezes por semana». Marco Magrini faz uma afirmação consensual quando diz: «é bom treinar a gratificação diferida já em tenra idade […]. E cita: «os “não” ajudam a crescer» (Asha Phillips), mas acrescenta que também se podem aprender em adulto.
Escolher e manter escolhas de saúde para a velhice é para todo o arco da vida. Não apenas manter o que se decidiu e aprendeu, mas aprender mais toda a vida.
4) O sistema aprendizagem. A representação mental de um envelhecimento saudável e feliz é um dom para o operador do eu corpo-cérebro-mente-consciência de imaginação. É recebida desde criança na educação, por conhecimentos adquiridos e por relações com mestres e facilitadoras. Aprende-se, escolhe-se e cultiva-se como objetivo e sentido de vida para ser recebido mais tarde na velhice como recompensa diferida.
Começo por uma pequena história pessoal. A partir de cerca dos 70 anos, tenho passado por fases curiosas de acertar o estilo de vida. As leituras e a balança pedem para acertar o peso, os alimentos e os exercícios físicos. Durante 20 anos, temos acertos frequentes da fórmula: “comer metade, andar o dobro e sorrir o triplo”, ou a mais simples: “menos prato e mais sapato”. Menos já não se aplicará às bebidas alcoólicas, tabaco, drogas, mas sim às horas de TV, redes sociais e seus jogos, vídeos e excessivas horas de computador, etc. Aos 80 anos, continuam a infiltrar-se excessos no organismo-mente, como armadilhas ao cérebro-pessoa para lhe roubar o tempo, como sucede com a informação-publicidade das redes e outros meios de comunicação. Impedem aprender saúde, atualizar conhecimentos e manter atividades saudáveis: o programa ou fórmula pessoal de envelhecimento precisa de ser reconfigurado continuadamente por tentativas e erros.
Infelizmente, quando se aprende a envelhecer já tarde, perdem-se alguns dos objetivos, mas podem conseguir-se outros. Os hábitos adquiridos, contrários a um envelhecimento saudável, podem ser irresistíveis e difíceis de inibir para os trocar por outros saudáveis. A regra de ouro: “aprender é repetir” e a regra de “aprende-se a ver fazer”; os exemplos dos mestres que vivem o que ensinam e animam a vencer obstáculos. O cérebro pode ser uma máquina de aprender, mas precisa de estímulos de fora. Precisa de acreditar no eu-consciência e noutros eus-consciências que acreditem que cada eu-mente pode aprender sempre mais.
Sem entrar em pormenores, convém recordar que a repetição leva as sinapses entre neurónios a comunicar com outros, à volta, e quanto mais se ligarem mais se aprende, mais se recorda e mais se gosta. E as ligações da repetição podem estender a ligação a várias áreas do cérebro e a fixar-se na memória, como mostra a RM. A repetição que dá gozo e o mestre que torna o aprender agradável fazem disparar pelas sinapses a dopamina da recompensa que estimula a aprendizagem pontual e as suas repetições com prazer.
A recompensa diferida do envelhecimento saudável exige inibição doutras experiências imediatas antagónicas. As recompensas alternativas imediatas são tentadoras, mas podem avariar o “material instalado” e desviar do objetivo o funcionamento harmonioso do cérebro humano.
Um programa de envelhecimento saudável e ativo depende dos conhecimentos aprendidos nos contextos naturais das coisas e das relações com pessoas e com realidades transcendentes. O cérebro começa cedo a aprender automaticamente, mas é mais que uma máquina de aprender e treinar as sinapses e os seus fluxos de informação com repetições insistentes. O cérebro tem programas instalados que tornam possível a imaginação e os seus jogos de pensamento que se afastam das rotinas habituais e ousam novas ideias. Aprende-se o quê? Mais fácil a questão que a resposta. Uma primeira resposta seria: aprende-se quase tudo desde que se usem todas as potencialidades. Os cientistas da neurociência e da astrofísica não sabem (ainda) até onde vão as capacidades de aprender do cérebro-mente-intelecto-consciência humana. O Universo é maior que o intelecto humano e não deixa esgotar as possibilidades de aprender.
Um molho dinâmico de conhecimentos. Os processos e conteúdos da aprendizagem obedecem a um princípio estranho: tudo o que o cérebro é e tudo o que aprendeu serve de motor para aprender mais e de maneira diferente. Neste aspeto, não há dois cérebros iguais. São semelhantes e diferentes pelos genes do ADN, pelas emoções, motivações, capacidade de atenção, níveis intelectuais, imaginação, afetividade e relações com coisas e pessoas, e com o transcendente; e ainda pelos conhecimentos aprendidos em cada momento da vida. Serão também diferentes pelo envelhecimento que escolheram ter (ou não escolheram). Os neurocientistas confirmam que o cérebro está dotado de grande plasticidade para criar e inovar novas conexões que se intensificam mais quando há desmotivação (cf. em Magrini, 2018, p.146). Aprender é melhorar a aprendizagem, a criatividade, a modificação de hábitos nocivos, envelhecer com mais saúde e recompensa prazer. Aprende-se a motivar-se e a recompensar-se; a ter gosto em projetar e adiar algumas recompensas para o futuro desejado e esperado. Tudo isto são modos de preparar um envelhecimento saudável. Nesta aprendizagem, privar-se de algumas coisas para maximizar a recompensa futura pode tornar-se tanto ou mais agradável que a própria recompensa diferida. Para ilustrar vai, a história deste trabalho.
Assumir o projeto de envelhecimento saudável e gratificante terá inícios de tentativa e erro à volta do plano. Uma vez iniciado, a satisfação vai aumentando, como aconteceu na elaboração deste ensaio. Teve intenção pronta, mas inícios demorados e hesitantes. As primeiras tentativas de plano falharam; o primeiro esboço de ideias continuou hesitante, com avanços e retrocessos. Não satisfazia, até que na fase seguinte veio a descontração e o texto começou a fluir. Do meio em diante, o trabalho tornou-se um prazer e as ideias pulavam na imaginação, impelidas por leituras de apoio. Vivia já certa recompensa antecipada ao imaginar o trabalho concluído.
O sentido da vida no envelhecimento
Vamos terminar o nosso tema abrindo para além do horizonte do envelhecimento. De uma maneira ou doutra, um sentido de vida como convicção não científica, não exclui a esperança na transcendência para além da morte; nem exclui a escolha da bondade, do amor e da esperança de mais vida. O sentido da vida não se recebe (só) do cérebro e da mente. Dá o como mas não o quê. O que o eu-cérebro vive, sabe, armazena na mente-memória e alimenta a imaginação e ação aprende-o em relações abertas. Uma recompensa diferida, como a velhice feliz, pode ser alimentada pela esperança e pela fé na vida eterna? Viktor Frankl, o sobrevivente de Auschwitz, foi o psicólogo que mais significativamente tratou deste tema. Escreve ele: «o objetivo da psicoterapia é a cura psíquica, enquanto o fim da religião é a salvação da alma» (in OLIVEIRA, 2004. P.163). Mas a saúde do corpo não exclui a salvação da alma e vida eterna. O sentido de velhice ativa poderá incluir a crença do que virá a seguir, uma vida diferente ultraterrena? Viktor E. Frankl afirma que a responsabilidade do ser humano lhe torna efetivo o sentido potencial da sua vida a descobrir num sistema aberto e não fechado; e acrescenta que chamou a esta caraterística constitutiva (aspas suas):
«a auto transcendência da existência humana». “O ser humano está dirigido a algo ou alguma coisa para além de si mesmo - seja isso um sentido a preencher, ou outro ser humano a encontrar”. E dá três exemplos de formas de descobrir esse sentido: 1) criando uma obra ou praticando uma façanha; 2) vivendo uma experiência [bondade, verdade, beleza, diz mais abaixo]; e 3) por meio da atitude que assumimos ante um sofrimento inevitável (FRANKL, 2017, pp.112-113).
Para os que vivem a fé cristã, a esperança numa recompensa diferida para lá da morte/ressurreição poderá também fazer parte dessa escolha, se lhe for oferecida por Alguém. E a fé cristã identifica essa pessoa em Jesus Cristo. Cada um pode sempre escolher o sentido de vida que ainda deseja. Com o risco de alguns sentidos falharem. De entre os objetivos possíveis da vida, pode-se escolher um emprego compensador, vida de riqueza, vida de prazeres; saúde na harmonia do ser, realização pessoal, fechada, ou vida de amor e doação aos outros; e ainda vida de valores transcendentes: unidade, verdade, bondade, beleza e relação com os outros, e vida eterna de relação. Mas a dor da morte espreita sempre.
Terminamos com uma narrativa de Viktor Frankl acerca de um companheiro de Auschwitz, judeu ortodoxo, que perdeu a mulher e os seis filhos no campo, e a mulher atual era estéril. Desesperava por não ter um filho que lhe fizesse um Kaddish (oração fúnebre):
«Fiz uma derradeira tentativa para o ajudar perguntando se não esperava ver, novamente, os filhos no céu» …chorou e «explicou que os seus filhos tendo morrido como mártires inocentes [como santos], eram dignos do mais elevado lugar no céu, enquanto ele, sendo como era um velho pecador, não podia ser destinado ao mesmo lugar. Não desisti e repliquei: “Não será concebível, rabi, que esse seja justamente o sentido da sua sobrevivência aos seus filhos? Que possa ser purificado por estes anos de sofrimento, de modo a que por fim, embora não sendo inocente como os seus filhos, possa também tornar-se digno de reunir-se a eles no céu? Não está escrito nos salmos que Deus guarda todas as nossas lágrimas? (em nota: Salmo 56,8). Por isso talvez nenhum dos seus sofrimentos tenha sido em vão”. Pela primeira vez em muitos anos sentiu o sofrimento aliviado graças ao novo ponto de vista que consegui desvendar para ele» (FRANKL 2017, p.120).
[1] Neste ensaio para exprimir a complexidade e unidade do “eu” recorro a expressões compostas ligadas por hífens.
[2] «Quando o orgulho, o rei de todos os pecados, possui inteiramente um coração conquistado, entrega-o de imediato aos sete pecados principais» (cit. in Lewis, 2018, p.33).
[3] Entre [ ] nomes dos pecados capitais.
[4] Magrini apresenta várias abordagens, inclusive da área da quântica, sem consensos ( in Cérebro,2019 pp.136-139). Será que se a ciência explicar o livre-arbítrio este não fica reduzido ao determinismo? Por outro lado, a ciência dura não prova nem nega o espiritual (imaterial).
[5] Em linguagem da Bíblia, (Génesis, 1, 26-28),a base do livre arbítrio está no fato de o homem ser criado à imagem e semelhança de Deus.
[6] A disputa acerca da liberdade faz parte do livre arbítrio. A liberdade não é científica, se fosse verificável cientificamente, deixava de ser liberdade. A ideologia da transhumanização sonha em tornar o homem robot perfeito, mas máquina.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BROOKS, Arthur C. “O seu declínio profissional está a chegar (muito) mais cedo do que pensa” in Revista Expresso, 20 julho 2019, pp27-34;
DAMÁSIO, António, Sentir & Saber, A caminho da consciência, Círculo de Leitores 2020; ISBN978-989-644-540-9;
FRANKL, Viktor E., O homem em busca de um sentido, Lua de Papel, 6ª edição, 2017 ISBN 978-989-23-1991-9;
MAGRINI, Marco, Cérebro, Manual do utilizador. Edições Desassossego, Porto Salvo, Editor Luís Corte Real, 2019; ISBN978-989-8892-35-5;
LEWIS, Jack, A ciência do pecado. Porque escolhemos fazer o que não devemos, Ed. Desassossego. Saída de Emergência2018 ISBN978-989-8892-30-0;
OLIVEIRA, José H. Barros de, Psicologia positiva, Edições Asa,2004.
Aires Gameiro, Psicólogo e Sacerdote, membro da OH-ISJD, CLEPUL-FLUL, CEIS20-UC, SGL e APH












